O pesquisador Marc van Montagu, da Universidade de Gent, Bélgica, defendeu o uso dos transgênicos, organismos geneticamente modificados (OGMs), por países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento, como forma de não ficarem dependentes da importação dessa técnica de países do Primeiro Mundo.
‘‘Nós, cientistas, temos de explicar as consequências do não uso dessa tecnologia para a população e os países têm de desenvolver tecnologia e trabalhar com suas plantas típicas’’, disse ele, ontem, durante o IV Encontro Latino-Ame ricano de Biotecnologia Vegetal (RedBio 2001), que se realiza em Goiânia.
Para trabalhar com transgênicos, ele propôs que os países desenvolvam em suas universidades e institutos a pesquisa básica, pois a aplicada é muito cara. Essa parte da pesquisa ficaria sob responsabilidade das indústrias que já estão estabelecidas.
Em entrevista à repórter Janaína Simões, Agência Estado, o cientista disse que devemos contar com a indústria já existentes para chegar a um nível maior. Se quisermos gerar novas plantas, temos de contar com uma indústria forte de sementes, afirmou.
No entanto, esse processo geraria uma dependência tecnológica por parte dos países que não têm uma indústria biotecnológica nacional avançada. ‘‘Isso é uma situação atual, mas livra o país de depender politicamente de outro para produzir alimento. Com o tempo, haverá um equilíbrio de forças’’, justificou.
Entre as vantagens apontadas pelo pesquisador no uso dos OGMs está a possibilidade de se desenvolver, com a biotecnologia, novas plantas transgênicas que sejam resistentes à seca, problema em países da África, onde se concentra a fome, e em regiões árida s como o Nordeste do Brasil. ‘‘Esse é um problema urgente, uma vez que temos escassez de água’’, disse.
Identificando plantas que sejam resistentes, pode-se mapear os genes e encontrar os responsáveis pela resistência aos raios solares e sobrevivência no a mbiente árido. Depois, os genes são introduzidos em outras plantas, tornando essas áreas cultiváveis. ‘‘Uma experiência de 13 anos atrás, na Rússia, mostrou que isso é possível’’, contou.
A tecnologia também serviria para que se preservasse as florestas, uma vez que a produtividade de agricultura poderia ser aumentada nas áreas já cultivadas sem haver necessidade de novos terrenos de cultivo, que forçariam a derrubada das matas.
Os dois exemplos citados por ele foram um recado direto ao discurso das organizações não-governamentais, que apontam o domínio das empresas multinacionais porque elas detêm as pesquisas e a tecnologia. Controlariam, assim, a produção mundial de alimentos , segundo as ONGs. Outro ponto sempre questionado pelas entidades é a segurança ambiental quando se faz em larga escala a produção dos transgênicos.
Montagu disse também que vê de maneira negativa o processo acentuado de fusão entre empresas de sementes, agroquímicas e de setores afins. ‘‘Quanto maior a empresa, menos capacidade de reagir. Uma grande empresa pode trabalhar com prazos de 10 anos, mas a sociedade não pode esperar tanto’’, afirmou.

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