Oswaldo Petrin
O Brasil pode se afastar tanto das negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) como de uma nova rodada para liberalizar o comércio internacional no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC). A ameaça é do ministro Pratini de Moraes, da Agricultura. Motivo: Estados Unidos estão dispostos a continuar subsidiando fortemente sua agricultura, apesar dos discursos negando esta prática.
Num ponto o ministro está certo: os EUA não abrem mão do apoio à produção (lá não se fala em subsídio, que se expressa de outras formas). Incentivo à produção de alimentos é lei, que a sociedade compreende, que os políticos defendem e o produtor não pode prescindir.
O agricultor americano não toma conhecimento das pressões contra o que outros países chamam de subsídios. Eles afirmam que subsídio é o que a Europa faz. O que eles têm são incentivos, com respaldo da sociedade, que precisa pagar o preço de não ter que ir para a zona rural produzir. Menos de 3% da população é que faz isto.
Semântica à parte - com relação à fortuna que o orçamento americano reserva à agricultura, esta é uma realidade. Só que o Brasil, ao invés de ficar emburrado e abandonar as negociações, tem mais é que fazer igual: estimular o seu produtor.
Dias atrás, este jornalista fez parte de um grupo de colegas que percorreu a Costa-Oeste. No Corn Belt, produtores falaram abertamente sobre subsídios. Doug Bosworth, presidente da Associação dos Produtores do Condado de Dekalb, acha estranho que outros países questionem o apoio à produção, que considera legítimo.
O exemplo próprio de outro membro da Associação, Vincent W. Faivre, ilustra bem o apoio governamental. A soja, com um custo de US$ 7,14/bushel e negociada a US$ 5,00/bushel, resultou em prejuízo de US$ 2,14/bushel. O governo bancou a diferença e ainda pagou o custo de oportunidade, que é uma estimativa de renda que o agricultor poderia ter em outra atividade, empregando o equivalente em patrimônio e mão-de-obra. Faivre disse aos jornalistas que fechou a contabilidade no vermelho, ano passado: o equivalente a cerca de R$ 30 mil.
Com naturalidade, ele conta que o Tesouro americano creditou em sua conta o equivalente a cerca de R$ 100 mil. Faivre sai do vermelho e fecha a contabilidade da safra com um lucro que leva em conta custos fixos e variáveis como remuneração da terra, depreciação de equipamento e mão-de-obra familiar, além do chamado custo de oportunidade.
Faivre volta a plantar nos próximos dias uma nova safra, seguindo a orientação do USDA, certo de que a remuneração da sua atividade será garantida. O preço que o mercado vai pagar pela soja interessa sim, mas qualquer que seja ele, o fazendeiro não vai deixar de tratar corretamente o solo, por exemplo. Por razões óbvias. Viva a política agrícola norte-americana.
Moral da história: cada país tem que dar suporte à sua produção de alimentos, para garantir abastecimento regular, comida ao alcance de todos e divisas para o País. O Brasil não pensa assim e não admite que os outros pensem. O Brasil pune sua agricultura de várias formas e quer que os outros punam as deles.
E a cada ano, a cada conferência internacional, seus políticos se enchem de coragem e criticam os subsídios dos concorrentes. E nada mais que isto.





