Quando todos esperavam que o governo apresentasse ontem uma relação de ações contra importações do Canadá, o ministro das Relações Exteriores ficou, mais uma vez, nas amenidades. Sua declação não diz nada de novo (ver matéria nesta página). O que aliviou um pouco o clima tenso foi a declaração de um assessor da secretária da agricultura, afirmando que os EUA reconhecem as boas condições de sanidade do rebanho brasileiro. Isolada, sim, mas esta declaração (assunto principal desta página) expressa o pensamento do governo. Isto não quer dizer, necessariamente que o governo americano venha a transigir já que a decisão inicial é uma decisão de grupo.
Continua faltando firmeza, apesar da aparentemente bem-sucedida reunião de Pratini de Moraes ontem, com a secretária da agricultura.
O prejuízo em termos de imagem continua muito grande, como observa o analista José Vicente Ferraz, em entrevista à repórter Clauda Lopes, deste jornal.
A linguagem nas negociações internacionais têm que ser rápida e objetiva. E tem que ser linguagem de mercado. Em 1993, quando EUA sobretaxaram aço, calçados e suco de laranja, o então ministro da Indústria e do Comércio, José Eduardo de Andrade Vieira, se reuniu com a embaixatriz da Polônia e iniciou negociações para comprar carvão daquele País. E anunciou, pela imprensa, que o Brasil poderia importar carvão da Polônia, o que implicaria na redução drástica das importações dos Estados Unidos. A reação norte-americana foi quade imediata: dias depois as sobretaxas foram retiradas.
Ontem, entrevistado sobre o episódio da carne com o Nafta, o ex-ministro José Eduardo resumiu: nesses embates comerciais os dirigentes têm que ser rápidos e ter punho de ferro, de aroeira. Não podem ter punho de renda.
Pratini Segundo a Agência Estado, o ministro da Agricultura, Pratini de Morais, disse hoje que saiu de um encontro com sua colega americana, Ann Veneman, ‘‘com confiança de que os Estados Unidos farão uma revisão antecipada’’ da ordem de suspender as importações de produtos de carne do Brasil, que Washington anunciou na noite da sexta-feira passada, seguindo decisão tomada horas antes pelo Canadá alegando existir um ‘‘rico teórico’’ de contaminação do rebanho bovino brasileiro pela BSE, a doença da vaca louca. O período normal de revisão de tais decisões é de seis a oito semanas.
‘‘A secretária Veneman teve um encontro muito cordial com o ministro e ambos se comprometeram a trabalhar juntos para resolver essa questão da forma mais rápida possível’’, disse o porta-voz do departamento de Agricultura, Kevin Herglotz.
‘‘O ministro trouxe algumas informações adicionais, que nossos técnicos já estão examinando para completar a análise de risco e queremos ver o assunto resolvido o quanto antes.’’
Pratini disse que registrou a Veneman o protesto do Brasil diante da medida. ‘‘Manifestei a ela com toda clareza a nossa surpresa e também a nossa indignação com uma decisão que tomada com base apenas num risco teórico’’ de que o gado brasileiro poderia ser contaminado com a BSE, que dizimou a pecuária européia na década passada e já matou perto de 90 pessoas.
‘‘Na história das nações civilizadas nós desconhecemos uma decisão tão drástica de se suspender importação apenas em função de um risco teórico’’, afirmou o ministro. ‘‘Risco técnico de BSE não existe em nosso País pela pura e simples razão de que no Brasil o gado é herbívoro e não carnívoro e até canibal, como ocorre no hemisfério norte’’. Uma das forma comprovada de transmissão da BSE é através de rações com carne contaminada.

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