Oswaldo Petrin
Vai começar uma nova queda de braço entre frigoríficos e pecuaristas. O setor industrial quer repassar para os produtores a perda de uma fonte de renda: o couro. O governo, para beneficiar o setor calçadista, resolveu desencentivar a exportação de couro. Além de provocar um rombo na balança de pagamento, ainda prejudica os dois segmentos da carne: produtor e indústria. Tudo a pretexto de aumentar o valor agregado - exportando calçados - e não a matéria-prima. A princípio, uma medida inteligente. Mas o resultado, se houver, só daqui a dois anos.
A principal decisão governamental ficou na taxação de 9% sobre o preço FOB do couro em estágio wet blue. Segundo o presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, Nestor de Paula, o setor estava descoberto da matéria-prima nacional e não se conformava com este desabastecimento, uma vez que o Brasil é o segundo maior produtor mundial de couro.
A alta demanda externa pela matéria-prima estava levando as empresas a importar couro, pagando preços maiores e encarecendo o produto final, vendido tanto no mercado interno como no exterior, salienta. As medidas foram publicadas no Diário Oficial da União através do decreto número 684 e assinadas pelo presidente Fernando Henrique Cardoso e pelos ministérios da Fazenda; do Desenvolvimento; e da Agricultura.
Nestor de Paula destacou que, a médio e longo prazos, a indústria brasileira de calçados dará sua resposta a esta medida através do aumento das exportações de produtos manufaturados em couro, como calçados, artefatos e correlatos.
Certamente, esta decisão fará com que nossos negócios no exterior tenham um incremento monetário e de empregos, visto que o setor utiliza mão-de-obra intensiva, colaborando assim com o tão necessário aumento das exportações globais do país, cuja balança comercial está estabilizada em US$ 50 bilhões, explica.
Em 1999, o Brasil embarcou 137 milhões de pares de sapatos, contabilizando um faturamento de US$ 1,27 bilhão. De janeiro a novembro deste ano, o setor arrecadou divisas na ordem de U$ 1,4 bilhão, 22% acima do que foi obtido em igual período do ano passado.
Cada boi de 16 a 17 arrobas deixa entre 35 e 40 quilos de couro. O preço do couro no frigorífico varia entre R$ 1,50/1,55 o quilo. É dinheiro que gira no comércio e faz parte do giro do frigorífico que terá de compensá-lo de outra forma, lembram Toledo e Fanaya. O couro deixa de ser uma commodities para provavelmente virar excedente no mercado interno.
O setor movimenta cerca de R$ 2 bilhões por ano. Só o couro cru representa para Brasil uma receita anual de US$ 800 milhões/ano. De imediato haverá uma redução na balança comercial, segundo Fanaya e Toledo.





