OSWALDO PETRIN
Números que assustam os críticos da desnacionalização. Em cinco anos, o Brasil mais que dobrou a remessa líquida de recursos para o exterior (juros, dividendos e retiradas). O déficit gerado por essas transferências em relação ao Produto Interno Bruto saltou de 1,54%, em 1995, para 3,6%, no ano passado.
O cálculo faz parte do Sistema Integrado das Contas Nacionais, divulgado ontem pelo IBGE. O aumento da diferença entre o que entrou e o que saiu do país deve-se à maior participação de empresas estrangeiras na economia nacional, explicou o chefe do Departamento de Contas Nacionais do IBGE, Eduardo Nunes.
Extraindo o volume de recursos remetidos ao exterior do PIB, que em 1999 foi de R$ 960,858 bilhões, o país fica com uma renda nacional bruta de R$ 926 bilhões.
O PIB também encolhe se dele for descontado o efeito da maior arrecadação de impostos. O resultado é uma geração de riquezas que, traduzida em números, chegou a R$ 856,7 bilhões no ano passado. O interessante é observar que 61% dessa riqueza veio do setor de serviços, e 35,4%, da indústria.
O efeito impostos no PIB é cada vez maior em função de uma carga tributária recorde: passou de 28,44%, em 95, para 31,67%, no ano passado.
Segundo o IBGE, mesmo com essa maior arrecadação pública (via impostos), a economia viu sua necessidade de financiamento em relação ao PIB subir de 95 para 99. Essa taxa, que é um indicador da dependência da economia em relação à captação de recursos externos, era de 2,82% em meados da década e chegou a 4,5%. Essa é uma dependência provocada por um conjunto de fatores, porque o nível de consumo e investimentos públicos e privados excedeu a capacidade da economia, explicou o economista do IBGE.
Mas o setor deficitário, no caso, foi o governo, em todas as suas esferas (federal, estaduais e municipais), cuja necessidade de financiamento atingiu R$ 69 bilhões em 99.
Esse buraco foi parcialmente coberto pela capacidade de financiamento dos demais (instituições financeiras, empresas não-financeiras e o grupo famílias, que inclui também as microempresas, pequenas atividades agrárias, autônomos e empregados domésticos).
A necessidade de financiamento também é atendida com investimentos diretos, venda de empresas nacionais (privatização) e emissão de títulos públicos (endividamento). Com o aumento do investimento estrangeiro e a redução do gasto do governo com investimentos, temos um saldo instantâneo nulo. Fica tudo igual, disse Nunes (entrevista à Agência Folha - Isabel Clemente e Marcelo Billi). Mas o que se consegue é a garantia de investimentos em modernização que não seriam feitos pelo governo.
Para o economista Reinaldo Gonçalves, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), a alta proporção da remessa de juros e dividendos em relação ao PIB é prejudicial.
O Brasil, nos últimos cinco anos, teve crescimento medíocre, e se considerarmos só a renda, pior ainda, devido à crescente remessa para o exterior. (Agência Folha).





