É extremamente simplista o raciocínio do ministro Malan: se os preços dos alimentos continuarem subindo, o governo autoriza a importação. Nada mais burocrático.
Mas o governo FHC faz coisas piores para evitar a inflação: mantém uma política econômica tipo ‘‘cabresto curto’’. Sem consumo não há inflação, ainda que existam falhas no abastecimento. Desemprego, subemprego, subconsumo, marcam uma política econômica tímida que se sustenta linearmente em segurar a inflação.
Vez o outra o governo recorre a instrumentos de política monetária para inibir o consumo com juros altos. Mas, nem precisava. Os aumentos dos combustíveis, e outras tarifas públicas, se encarregam disso. A redução dos juros básicos nos últimos dois anos não significa, necessariamente, o afrouxamento do arrocho monetário.
É irritante a opção por saídas como a importação. Enquanto aumenta a crise social no campo por desemprego, enquanto meeiros, arrendatários, porcenteiros e proprietários querem produzir e não têm apoio; enquanto médios e pequenos produtores não têm giro para alavancar a safra, vem o governo e fala em importar milho.
Num momento tão difícil, de tanto sofrimento, em que o campo está vivendo no limite, esperava-se um plano de emergência - ou algo parecido - para reverter o ânimo e recuperar a auto-estima de milhões de brasileiros que vivem da atividade rural.
Por ironia ou capricho do destino, não é à toa que temos aí a coincidência com um período de dificuldades impostas pela natureza, a sugerir um governo pé-frio, marcado por geadas e longas estiagens.
Nem a aftosa conseguiu segurar.
O governo parece personalizar a figura doentia e azarenta do caipora.
A atitude de importar não é condenada, o consumidor, em maior número, tem que ser protegido. O que intriga é a falta de ação. É a ausência da estrutura como os ministérios da Agricultura, Indústria e Comércio e, sobretudo, a indiferença dos políticos que dão sustentação ao governo. Parece que todos foram acometidos, coletivamente, de uma doença chamada ergofobia.
O governo se verá obrigado a importar esses grãos para atender à demanda interna, disseram os especialistas, na semana passada, apontando que o caso do milho é o mais preocupante, pela ampla aplicação dessa matéria-prima na ração animal.
Até o final do ano, o preço do milho cresceria 20%, enquanto o do trigo subiria 10%, segundo analistas econômicos que defendem a abertura às importações para impedir esta escalada.
O presidente da Conab, Antônio Carlos Pinheiro, também se mostra favorável à importação, apesar das restrições judiciais de alguns setores ao milho transgênico, usado sobretudo na elaboração de ração animal. O déficit de milho é estimado em 1,4 milhões de t pelos técnicos da Conab.
Quanto ao trigo, as autoridades econômicas informam que é possível ser controlado mais facilmente. O País importa cerca de 80% do grão para atender à demanda interna, estimada em 10,1 milhões de toneladas este ano.
Mas, mesmo no trigo, se houvesse uma política de produção, a dependência da importação poderia ser menor. Como não somos competitivos, tudo bem, que se importe o trigo. Mas que pelo menos não se abandone a idéia de incentivo à produção.

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