Os recursos que o governo federal destinará ao Paraná (ainda na promessa) amenizam os problemas imediatados de uma determinada faixa da produção. Mas as consequências da geada são de dificil reparo. É preciso considerar também que esses efeitos seriam menores se o governo FHC não tivesse deixado o setor de abastecimento tão vulnerável, caso do milho. O preço do abandono da produção de alimentos no atual governo já transparece nos índices de inflação (veja abaixo). O discurso das lideranças do setor tiveram ontem o endosso do professor Fernando Homem de Mello, da USP. Há desdobramentos que não podem ser contornados com simples ajuda imediata. Nem entram na contabilidade agrícola.
É o caso do trigo: a perda de 1 milhão de toneladas da safra de trigo paranaense, estimada ontem pelo Deral (Agência Estado), deverá provocar uma importação adicional do produto de US$ 150 milhões a US$ 190 milhões em 2000.
Segundo o Flavio Turra, técnico da Ocepar, acredita que o Brasil terá de importar cerca de 1,5 milhão de toneladas de trigo a mais que as 6 milhões de t que já seriam importadas. ‘‘Além das perdas de 1 milhão de toneladas no Paraná, muito do trigo que restou não terá a qualidade necessária para a indústria brasileira e, por isso, a importação terá de ser maior’’, disse (Agência Estado, ontem).
O grande problema é que a única origem deste trigo será a Argentina, que não possui grandes estoques do produto neste momento e deverá aumentar o preço para venda para o Brasil.
O trigo perdido entraria no mercado entre agosto e setembro e, agora, estes dois meses estão descobertos. São cerca de 1,8 milhão de toneladas de trigo que a indústria brasileira terá de arrumar e a única saída é a importação da Argentina, que com certeza vai especular.
O pouco trigo da safra velha existente já está sendo cotado a R$ 300 por tonelada no Paraná. Com isto, muitos moinhos do PR estão até comprando produto do Rio Grande do Sul a um preço entre R$ 260 e R$ 270 mais frete de R$ 25 na média, o que garante uma tonelada menor que R$ 300, de acordo com o analista Giocondo Zanutto, da J.F.Consultoria.
Segundo Antonio Garcia, da área de comercialização da Coamo, cooperativa do Paraná, apenas os moinhos pequenos e aqueles com problemas de crédito estão comprando trigo a R$ 300. ‘‘Estes moinhos ainda não têm produto para moer em agosto e não conseguem carta de crédito para importar da Argentina’’, disse.
O trigo importado da Argentina está chegando ao Porto de Paranaguá, posto sobre rodas, a US$ 151 por tonelada (R$ 271), o que significa um preço em torno de US$ 131 FOB. Porém, este patamar de preços já começa a mudar. Hoje, o preço do trigo para entrega em setembro na Argentina já subiu para US$ 134 FOB.

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