Amanhã, segunda-feira, a indústria e o atacado iniciam suas atividades recalculando os juros que cobram do varejo que, por sua vez, repassa para o consumidor. Certo ou errado? Errado.
Amanhã, segunda-feira, os fornecedores em geral, indiferentes à tímida redução dos juros básicos - na sexta-feira -, mantêm as mesmas taxas de dois ou três meses atrás. Mas o varejo, faz promoções alongando os prazos de pagamento e anunciando facilidades irreais. Certo ou errado? Certo.
Redução de juros básicos, no país das taxas mais altas do mundo, ocupa espaço abundante na imprensa mas não tem lugar nas vitrines. O comércio aproveita para alongar prazos e disfarçar com outros tipos de promoção. Reduzir, jamais.
Uma boa forma de aferir isto é comparar as taxas do crédito pessoal em março de 99 (juros básicos de 44%) com os juros de sexta-feira de 17,5% (reduzidos para 17%). Enfim, o custo dos financiamentos de bens de consumo praticamente não mudou. No caso do cheque especial, então, nem se fala. Aliás um leitor de Maringá que se deu ao trabalho de somar os juros chegou à conclusão que eles cresceram 155.000% do início do Plano Real até agora.
Desde o início do ano o Comitê de Política Monetária (Copom) vem afirmando que o ambiente econômico comporta redução dos juros. Na última reunião a taxa caiu de 18,5% para 17,5% e, na sexta-feira, houve redução de mais 0,5% ponto percentual.
Juros preventivos, juros defensivos. Uso do instrumento de política monetária para conter a inflação pelos preços.
E conter o consumo pelo estômago do consumidor.
Já não se trata mais de medo de eventual ataque especulativo externo. É medo da inflação de demanda, medo do carrinho lotado nos supermercados.
Assim FHC mantém a inflação: pelo subconsumo, pelo desemprego, pelo subemprego.
Quem sentiu um pouco de alívio pela mísera queda dos juros na sexta-feira, volta a sentir, amanhã, o mesmo pesadelo de sempre - se acreditar nesta nova chance de maquiagem dos prazos dos eletrodoméstico ou dos móveis que quer renovar.
Este subconsumo atinge a todos - a despeito do crescimento de 5% ao ano do setor têxtil –, mas o agronegócio é o mais prejudicado.
Sem renda suficiente para economizar na compra de bens duráveis, o assalariado limita seus gastos à comida. Para manter esse consumo, o varejo administra suas promoções e faturamento no item alimentos. Produtos de origem animal ou vegetal são usado em promoções para atrair a compra de outros itens. Chega a ser desdenhoso para quem produz.
Carnes de frango ou suínos a R$ 2,00 não são caras (e, portanto, não se deve culpar o milho): os salários é que são curtos.
É ridículo comemorar deflação - como ocorreu pelo menos três vezes durante o Real - quando se tem tanta necessidade de crescer, gerar empregos e consumir.
Demanda reprimida um dia se manifesta, ou na forma de recessão com inflação ou na forma de eclosão social e política.

LEITURA DINÂMICA
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