O ministro Pratini, da Agricultura, teria dito no meio da semana que ‘‘só os bobos perdem dinheiro’’, reagindo às críticas do mercado cafeeiro pela demora na definição das regras para retenção de estoques. O setor, com razão, debita a queda de preços à ausência de critérios de estocagem e outras medidas previstas no acordo da Associação dos Países Produtores de Café (APPC), em Londres, um mês atrás.
A lentidão do Ministério da Agricultura pode não ser a principal responsável pela queda nos preços e consequente prejuízo. Mas, com certeza, exerce uma influência sobre o mercado. Tanto que o preço reage toda vez que o governo promete anunciar os critérios da retenção, como ocorreu dias atrás.
Agora, chega a ser intrigante a forma como o ministro coloca a questão. Justamente ele que atuou com desenvoltura no mercado internacional, inclusive de commodities.
Se há um setor que esbanja agilidade e competência nas operações comerciais, este setor é o mercado cafeeiro. O estigma do conservadorismo - se é que ainda existe algum resído cultural - estaria na ponta da produção. Mesmo assim, é de se duvidar. Afinal, o primeiro setor do agronegócio a operar com CPR Financeira foi o café, em Minas Gerais. E não foram tradings, ou cooperativas apenas; foram também produtores individuais que deram resposta imediata ao moderno sistema de comercialização. E, no Paraná, as novas técnicas (na verdade um conceito) de adensamento criadas pelo Iapar foram rapidamente incorporadas pela lavoura. Os cafeicultores do Paraná derrubaram o mito de que a mudança tecnológica tem problema de adoção.
Portanto, de resistente e conservador o setor não tem nada e, de bobo - como teria dito o ministro - menos ainda.
Vez ou outra ouve-se, dos corretores, que o grande cafeicultor, estocado, não vende na alta porque está sempre achando que o preço vai subir mais. Isto, convenhamos, infelizmente é verdade. Mas não é uma regra geral.
Com relação à postura de Pratini, é preciso reconhecer, porém, que ele age com prudência quando diz que quer evitar manipulação do mercado. O governo quer evitar concentração de estoques nas mãos de importadores. Esta preocupação está expressa na frase atribuída ao ministro na quinta-feira: O programa de retenção foi montado para defender o produto e não para beneficiar este ou aquele detentor de estoques.

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