Oswaldo Petrin
Os embarques de café, carnes, complexo soja, suco, açúcar, enfim vários itens do setor primário estão convertendo menos dólares. Notícia divulgada ontem neste jornal, tendo como fonte o Siscomex, mostra o recuo da receita na conversão desses produtos. Os embarques renderam US$ 32,2 milhões por dia na primeira semana do mês, bem abaixo de igual período ano passado e do mês anterior, exemplifica.
Os volumes aumentam mas a receita encolhe ou, na melhor das hipóteses, não cresce na mesma proporção. Para não perder de vista, o real mantém uma desvalorização de 16,4% em relação ao dólar.
As exportações de frango somaram 200 mil toneladas no primeiro trimestre deste ano, 29% a mais do que no mesmo período de 99. Mas as receitas, que somaram US$ 188 milhões no trimestre, não podem ser tão boas, já que a tonelada de carne de frango caiu de US$ 1.136, no final de 99, para US$ 938, em 2000, diz Athaíde Miranda, do Deral paranaense.
Não se pode debitar a queda da receita à redução dos preços externos ou ao menor volume exportado. Mas o fato coloca em discussão o seguinte: o real, de fato, está recuperando a desvalorização do ajuste cambial do ano passado? E, por outro lado, a pergunta é se realmente a valorização do dólar em relação a outras moedas, como o euro, está dando carona ao real, como quer o ministro da Fazenda, Armínio Fraga?
Outro questionamento é até que ponto o Brasil perde na relação dólar-produto por conta das altas taxas de juros. Essa mudança de perfil é válida às vésperas da decisão Conselho de Política Monetária (Copom) para manter os juros em alta, na sintonia com os juros norte-americanos.
Os técnicos colocam a questão da seguinte forma: juros básicos americanos em 6,5% ao ano podem aprofundar ainda mais a sobrevalorização do real em relação a outras moedas que não o dólar. Taxas mais altas atraem mais capital para os Estados Unidos e, como consequência, dólar e adjacentemente o real se valorizam.
Toda conjectura em torno dessa transição puxada a) pela alta dos juros norte-americanos, b) pela queda dos preços das commodities e c) pela valorização da moeda , nos remete a outro questionamento: os importadores de produtos brasileiros estão, realmente, propensos a pagar o preço desses ajustes?
Dependendo das respostas para estas questões, pelo menos dois setores podem sair prejudicados: a) a agricultura que, contrariamente ao que quer Fraga, pode ficar com o mico dos juros altos, b) a balança comercial que perde equilíbrio com a redução o recuo da receita.





