Oswaldo Petrin
O fiel da balança
Tudo indica que, também este ano, o setor de agronegócios vai salvar a balança comercial. Até 20 de fevereiro, o setor obteve um superávit de US$ 1,324 bilhão, embora no mesmo período o déficit geral foi de US$ 127 milhões. No mês de janeiro, o superávit obtido (pelo agronegócio) foi de US$ 774 milhões. Ainda que o começo do ano seja considerado fraco para exportações, o quadro para o primeiro semestre está mais ou menos configurado.
Contudo, o crescimento das exportações nesta área não será suficiente para reverter o resultado da balança comercial neste trimestre, que deverá continuar negativo.
Ressalve-se ainda que os preços internacionais das commodities (a julgar pela queda do café e estabilidade da soja) vão impedir uma contribuição maior do setor primário à balança comercial. Tanto que o superávit deste início de ano foi puxado apenas pelo suco de laranja e o açúcar. (O complexo soja teve um desempenho muito fraco).
O fato é que com altos e baixos o setor dá sua contribuição à economia. Salva a balança comercial e mantém estáveis os preços internos dos produtos essenciais para o abastecimento. O peso da agropecuária ou do agronegócios num sentido mais amplo é decisivo para a estabilidade econômica.
Difícil é saber até quando isto vai continuar acontecendo; até quando o setor terá fôlego para produzir abundâncias quase sem custo (para o governo) e sem reinvestimentos. O setor requer liquidez, reformulação e o mínimo de capitalização. Difícil é preencher essas carências neste governo FHC que em matéria de agricultura é o mais extrativista possível; é um quase predador.
O bom desempenho da economia agropecuária em troca de muito pouco faz lembrar o comentário, dias atrás, em Londrina, do delegado do Ministério da Agricultura, José Roberto Borghetti. Em números aproximados o agronegócio participa com 42% de um PIB de R$ 1 trilhão. Mas o retorno para o setor representa algo em torno de modestíssimos 5% desse bolo.
O comentário foi feito num contexto diferente (em relação à postura dos governos estaduais), os dados, porém, estão valendo.
Garantir recursos é uma questão para ser resolvida politicamente que não dispensa o esforço dos setores interessados.
Sobre a canalização de recursos do governo federal para o Estado do Paraná, o técnico fez observação que merece ser considerada. Salvo erro de interpretação do repórter, Borghetti deixou entrever que há recursos sim, basta saber onde eles estão e brigar por eles. Quase ninguém tem feito isto.
Ney Braga, quando governador, tomava cafezinho com escalões do governo. Ficava sabendo de muita coisa, segundo o Borghetti, que deve estar se baseando em informações de altos funcionários mais antigos. Ney Braga mapeava o caminho das pedras e chegava aos programas, projetos e departamentos certos. Fazia prospecção de onde arrancar verbas. De volta ao Paraná, fazia propostas e projetos e se habilitava na disputa desses recursos. Assim, ele carreava muitos benefícios para o seu Estado.
Depois de Ney Braga ninguém mais fez isto.
LEITURA DINÂMICA
-Borghetti fala com a experiência de quem atuou nos pontos de decisão de dois ministérios e diz conhecer a burocracia federal.
-Ele fez o comentário a um grupo de produtores e técnicos na reunião do Conselho de Sanidade Agropecuária, no Sindicato Rural de Londrina.
-Sobre a balança comercial é justo reconhecer que o bom desempenho de janeiro contou com as exportações de carnes em geral (US$ 2 milhões) e papel e celulose (US$ 217,9 milhões).
-Tão importante quanto o volume é o crescimento das vendas. Exportações de carne bovina cresceram mais de 65% no mês passado; volume embarcado cresceu 123%.
-O aumento de pouco mais de 2% verificado nos preços do café não foi suficiente para estimular as exportações.
DROPS
Alimentos A Associação das Indústrias de Alimentos (Abia) vai decidir na quarta-feira se entra com ação direta de inconstitucionalidade contra decisões de governo que obriguem distinguir produtos transgênicos.
Rótulo A Abia quer evitar o que aconteceu em São Paulo que exige que as embalagens tenham o aviso: Alimento geneticamente modificado.
Custo Não se trata de posição favorável ou contrária aos transgênicos: é uma questão de custo.
Restrições A Abia, contudo, voltou a se queixar contra restrições aos transgênicos. Prevê que no caso das importações de grãos (País terá de importar milho) será difícil fugir desses produtos.
Matéria-prima Maior parte da matéria-prima da Argentina e Estados Unidos são produtos transgênicos, segundo fonte da Abia.
Pisando em ovos No caso do milho, que deve vir da Argentina, não há saída. Restrições ao transgênico argentino podem estremecer as relações prejudicadas pelo acordo automotivo e frango.
Mercosul Respinga no Mercosul, congelando de vez as relações do bloco. Justamente agora que o Brasil tenta desanuviar a complicada economia dos seus parceiros.
Blocos Fiasco de Seatle leva as economias a se estreitarem regionalmente. Mercosul mantém as predisposições para para isto. Não pode haver contratempos.





