Safrinha, a saída
O atraso da safra da soja pode afetar a safrinha de milho, mas nem tanto. Vejamos as razões:
1) Mesmo com as importações de milho, os preços do produto no próximo ano se manterão em alta. O desabastecimento é tão grande que as importações não vão resolver. A demanda é forte. Portanto, a safrinha reserva um bom lucro ao produtor.
2) A opção pelo trigo é problemática porque havendo aumento de área, vai faltar semente. Haverá oferta de semente, mas de baixa qualidade. Isto já está sendo colocado como preocupação.
3) O preço do trigo que parecia convidativo três meses atrás, será péssimo no próximo ano, pelas seguintes razões: a) O clima tem ajudado muito a produção de trigo nos Estados Unidos; dizem que também na Argentina, aumentando, portanto, a disponibilidade e oferta do cereal, b) Os estoques mundiais de trigo estarão altos no próximo ano, c) EUA terão dificuldade de colocar trigo na Rússia e outros países e terão que apostar tudo - como já vêm fazendo - no mercado brasileiro, d) Se neste ano de 1999 os preços do trigo recuaram 14% no mercado mundial, no próximo ano podem recuar ainda mais. No Brasil, por exemplo, o trigo argentino caiu, na semana passada, para R$ 118/tonelada, sendo que até outubro o trigo nacional era comercializado por R$ 200/210/t. Vai ser difícil para o trigo nacional competir nessas condições.
Ao contrário do trigo, os estoques de milho dos EUA vão cair ainda mais, abrindo espaço para a Argentina aumentar suas exportações, o que dificultaria ainda mais para o Brasil importar milho do vizinho país.
Sobre a produção mundial de trigo divulgada dias atrás pelo USDA, o analista de Safras & Mercado, Marcos Paulo Fuck, acha que os números da produção mundial de trigo favorecem o Brasil enquanto importador, pois a queda de preços pesa menos na balança comercial.
Mas, ao mesmo tempo em que isto ocorre, o produtor brasileiro é prejudicado com queda de preços do trigo. Fuck dá como exemplo mais próximo o aumento da produção argentina que na semana passada refletiu nos preços do trigo no Rio Grande do Sul. Os preços caíram de
R$ 210,00/t para R$ 190/tonelada. Há indícios de que o preço do trigo importado caia aos níveis do preço mínimo ao produtor nacional, de R$ 185,00/t.
Posição do agricultor, hoje: é preferível optar pela safrinha de milho, correndo risco de um plantio tardio, do que plantar trigo sabendo que o preço a ser recebido não cobre os custos de produção, por maior que seja a produtividade.




Leitura dinâmica
-Nas condições atuais para o trigo ser viável só mesmo uma mudança na política do governo. Mas aí o produtor corre alguns riscos: a) O governo FHC não coloca dinheiro na agricultura; b) Qualquer medida que venha a ser anunciada leva muito tempo para ser colocada em prática; c) Decisões do governo neste sentido correm sérios riscos de não serem cumpridas, como acontece em outros setores.
-Cerealistas de São Paulo e Paraná que estocaram feijão, apostando na alta do produto, ficaram com o mico. Não conseguem se desfazer de estoques enquanto os preços caem diariamente. Chegaram a pagar R$ 60,00/saca achando que, com a seca, a mercadoria chegaria a R$ 90,00.
-O presidente da Associação Brasileira dos Atacadistas (Abrace) Manoel da Costa Pereira, confirma que há cerealistas em dificuldade.
-A situação se agrava com a entrada, nos próximos dias, do produto de Irecê (BA) e importado da Bolívia, todos tipo carioca. Esses produtos entram no centro atacadista de São Paulo a preço médio de R$ 34,50/saca (60 kg). O boliviano peca na qualidade mas é muito competitivo.

DROPS
Milho O indicador de milho, calculado pela FGV/BM&F, ficou em R$ 14,60/saca (-0,07). Em dólar, a cotação ficou em US$ 7,88/saca (+0,64%). O valor a prazo ficou em R$ 14,80/saca, estável. Soja/Paraná O indicador de Preços da Soja elaborado Esalq/BM&F ficou ontem em R$ 20,05/saca (-1,18%). Em dólar, registrou US$ 10,83/saca (-0,37%). O Indicador é calculado com base nos preços praticados no mercado disponível em cinco praças do Paraná. Boi O valor à vista em reais do indicador do boi gordo Esalq/BM&F caiu 1,88% para R$ 40,25/arroba. Em dólar, o preço caiu 1,05%, para US$ 21,74/arroba. A prazo, a cotação ficou em R$ 40,96/arroba, queda de 2,13%. Veja abaixo, cotações no Paraná.

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