Oswaldo Petrin
Conversibilidade da moeda
-O projeto de conversibilidade da moeda (que expressa a intenção do governo de facilitar a troca de reais por dólares a partir do próximo ano), em gestação no Banco Central, pode vir à tona esta semana, na carona de dois fatos completamente distintos: primeiro, o interesse intrínseco do governo de implementar a medida: ela sugere certa maturidade do Plano Real (que ele ainda não adquiriu) e, portanto, politicamente é interessante para enfrentar a recessão prevista no primeiro trimestre.
-Em segundo lugar, porque vai encontrar um forte obstáculo, que não é de ordem econômica, na comissão do narcotráfico. Se ela evoluir nas investigações, o controle do fluxo de capitais será necessário para mostrar (também politicamente) o endurecimento do Banco Central sobre o funcionamento do câmbio, fluxo de dólares, etc. Aparentemente, nada tem a ver. Mas o volume movimentado no setor deve ser algo preocupante.
-Na mais despretensiosa das hipóteses, a proposta deve voltar a ser discutida, até porque a inflação está mostrando sua cara e não se sabe se a recessão que nos aguarda será suficiente para conter os indicadores da inflação. Qualquer fato econômico ou monetário que se crie, ajuda a desviar as atenções. Elementar demais.
-Quanto aos objetivos propriamente declarados da conversiblidade, a intenção do governo, a priori, era facilitar a troca de reais por dólares a partir do ano que vem. A verdadeira abrangência da medida, isto é o tamanho do afrouxamento das rédeas, não se sabe. Mas o conjunto de medidas da conversibilidade é, no mínimo, polêmico.
-Principalmente porque muitos especialistas são de opinião que o Brasil já abriu muito a guarda e que toda economia que se preza tem que regular a abertura de divisas. Essa flexibilização da conversão da moeda pode tornar a economia mais vulnerável à fuga de capitais - leia-se ameaça de ataques especulativos.
-De quebra, a medida traria dificuldades de administração do valor de troca da moeda, que se tornou mais volátil com a adoção do sistema de câmbio flutuante, em janeiro passado. Este é o pensamento dominante entre acadêmicos e críticos do sistema.
-Há quem justifique a conversibilidade como etapa de consolidação do Real perante uma economia globalizada. E uma forma de deixar entrever para os parceiros do bloco econômico que o projeto de estabilidade está seguro. Afinal, a facilidade na troca de reais por dólares seria um passo importante para a criação da moeda única do Mercosul, conforme opinião de especialistas, já manifestada na imprensa.
-A conversibilidade, como quer o Banco Central, não inclui autorização para os brasileiros abrirem ou movimentarem contas bancárias em dólares no País. Medida facilita a entrada e saída de dólares, como nas economias de câmbio livre.
Recessão
Sobre a recessão no primeiro trimestre ninguém tem dúvida. O problema é saber se o baixo consumo será suficiente para conter os índices. Tudo vai depender do peso específico dos itens da cesta básica prejudicados pela seca sobre a safra de verão.
Dragão é manso
Se a inflação adormecida não despertar nos meses de novembro e dezembro, pode sentar que o dragão é manso. Nesses meses deve ocorrer o que os técnicos chamam de inflação de demanda, pelo natural aumento das compras de presentes de Natal.
No ano
A imprensa tem informado que o Banco Central trabalha com um Indice de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA) de 8,65% para este ano, o que estaria dentro da margem prevista pelo sistema de metas de inflação. A meta de consenso era de 8% em 99.
Reprimida
Na definição de um índice político para a inflação, que concilie estabilidade com crescimento econômico - ambos discutíveis -, não se leva em conta a demanda reprimida nem a repressão salarial. Controle de preços via estômago.
Impulsão
Seja como for, se a preocupação do governo é manter a inflação (oficial) em nível baixo, terá de refletir sobre os aumentos das suas tarifas no ano: 1) cerca de 120% nos combustíveis, 2) 90% na CPMF, 3) 50% na Cofins. E respectivos efeitos dominó.





