Crise na indústria láctea
-A semana começa com a indústria do leite fazendo contas que vão revelar ‘‘crescimento negativo’’ estimado em 0,3%, na média dos quatro segmentos básicos: leite fluído pasteurizado e longa vida, em pó, queijos e iogurtes. Houve recuperação na ponta da matéria-prima no início do ano, mas a margem de ganho estava demasiado comprimida, reconhece a indústria.
-Aconteceu de tudo este ano com o setor lácteo. Foram tantas as variáveis que depreciaram a rentabilidade do setor que não há milagre contábil que sustenta sua viabilidade. Por isso, o presidente do Sindicato da Indústria de Derivados de leite e também presidente do Conselho Nacional da Indústria de Leite, Carlos Humberto , tem como certo um reajuste geral de quase todos os itens, logo no início do ano, apesar da tradicional queda de consumo no primeiro trimestre; não vai dar nem para esperar a recomposição da economia que geralmente ocorre após março.
-Segmento por segmento o setor sofreu forte crise no início do ano, provocada pela desvalorização do real. Isto motivou um aumento de demanda da matéria-prima nacional para suprir possíveis quedas de importação. A indústria passou a pagar melhor ao produtor nacional, houve uma recuperação de 25%, então a matéria-prima passou a custar mais - explica Carlos Humberto. ‘‘Só que, ao mesmo tempo, o exportador para o Brasil, que estava preparado para vender mais este ano, com a queda do real reduziu drasticamente seus preços em dólar para mentar a entrega de leite’’. Administrar essas contradições não foi fácil, segundo o presidente do Sindicato da Indústria.
-O setor industrial, desta forma teve, primeiro, de um lado uma oferta grande de produtos importados e, segundo, uma queda de consumo interno motivada pela recessão e por um aumento de custo de produto devido aumento da matéria-prima . ‘‘Estamos pagando mais pelo leite nacional e com isso estamos trabalhando no vermelho. Aconteceu nos três trimestres. Mas nada indica que em outubro novembro e dezembro as coisas mudem tanto. Até porque, o último trimestre do ano carrega outro impacto: o da seca, só que aí afeta mais a ponta da produção.
-Sem vislumbrar aumento no consumo, o setor entra no novo ano tendo que se adaptar a um cenário marcado pela concorrência levada ao extremo. Reajuste de preços, como medida imediata - mesmo sabendo que ela tem um custo, o da redução do consumo. A longo prazo a solução está na macro economia como a urgência na reforma fiscal: ‘‘O problema não está na cadeia produtiva do leite, o problema está na economia do País, de baixo consumo e violentamente tributada; somo so único País do mundo em que se tributa a cesta básica, o conhecido imposto da fome’’, desabafa Carlos Humberto .
-O setor começa a ser discutido mas ainda não tem um plano de ação ou uma proposta fechada para levar ao governo. Para reverter a situação não se excluem reivindicações ao governo. Nada descabido quando se trata de um setor que emprega cerca de um milhão de pessoas, do estábulo à indústria.



Leite derramado
De uma produção de 21 bilhões de litros/dia, só 12,5 bi vão para a indústria. São envasado e vendidos na caixa longa vida, cerca de 40%; viram queijo, 30%; leite em pó, creme e condensado, 20 a 25%; iogurte e outros 5%.
O perigo
Estima-se que entre 7 bilhões e 7,5 bi, não sofrem nenhum tipo de fiscalização. São leite cru, vendido na canequinha, queijo caseiro e outros horrores para agradar gostos menos preocupados com procedência e sanidade.
Queijo
O setor é muito pulverizado: não há no Brasil nenhuna indústria que tenha acima de 3% do mercado, para um consumo de 800 t/ano. A não ser as de queijos finos, de consumo restrito, concentradas em poucas marcas e fabricantes.
Valor agregado
Setor fatura R$ 10 bi/ano. O preço médio do produto elaborado (entre 50 e 55 centavos) é o dobro do que se paga ao produtor (entre 25 e 30 centavos). Esses valores variaram pouco este ano, mas se alteram conforme a região.
Carga pesada
Queijo, manteiga e iogurtes pagam 18%. Bebidas lácteas variam em torno desse valor, agrengado aí as siglas do PIS, cofins, CPMF. No total, um imposto médio de 22%, sem considerar cascatas, mas observando taxa zero do pasteurizado.

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