Movido a negócios
-Em fevereiro, logo após o ajuste cambial, perguntei a um empresário paranaense com negócios na argentina se a desvalorização do real afetaria o mercosul e qual a amplitude do ‘‘estrago’’ nos negócios entre os países. Ele disse que o ajuste sim, traria (como trouxe) algumas implicações, necessitando de adequações nem sempre praticáveis, dependendo da margem com que as transações se davam. Claro que em produtos altamente competitivos, com margens comprimidas, como os lácteos, teria de haver uma fase de adequação e que num primeiro momento, para ambos os lados, seria ‘‘traumático’’. Já para a maioria dos itens de manufaturados e veículos, a tendência era de adaptação. Uma questão de tempo. Meses depois constata-se um quadro parecido, agravado pelo endurecimento da Argentina.
-Isto com relação unicamente ao câmbio, mesmo assim, era preciso considerar situações bem heterogêneas, em que cada caso é um caso, pois Brasil e Argentina não negociam uniformemente meia dúzia de itens.
E a instituição Mercosul? O Mercosul fica para a agenda política, segundo o empresário. Enquanto os políticos divergem, brigam, alimentam a mídia, os empresários negociam.
-Pois é, na quarta-feira, quando empresários brasileiros e argentinos
recomendaram a adoção de acordos setoriais como solução para os atuais conflitos comerciais entre os dois países, lembrei daquela frase: ‘‘Enquanto os políticos dos dois países discutem, divergem e alimentam a mídia (e suas campanhas políticas, tanto lá como aqui) os empresários negociam’’. Convenhamos que não se pode ignorar o acordo do Mercado Comum, como, aliás, ponderou o empresário na ocasião.
-Na prática, essa informalidade permitia que os negócios fluíssem naturalmente. Mas, já que a Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e a União Industrial Argentina (UIA) assinaram documento, melhor ainda, que se legitime este reconhecimento de que as coisas são resolvidas setorialmente e que os negócios não podem parar, apesar das posturas dos governantes. Não demora, e o acordo macroeconômico virá no vácuo do acordo empresarial.
-E, ao contrário do que convencionaram os dirigentes, de que o acordo é temporário, na realidade ele tende a se consolidar e ganhar forma para futuros ajustes do Mercosul, que não se resume em Brasil e Argentina. A carta de intenções cria uma agenda de trabalho baseada em três pontos: a busca de acordos empresariais; medidas de facilitação de negócios; e o cumprimento da agenda pendente do Mercosul, que inclui o seu aprofundamento e uma coordenação macroeconômica para o bloco.
-A tese de que quanto menos governo melhor, nem sempre é verdadeira. Mas no acordo de quarta-feira observa-se que alguns dos pontos fundamentais apontados pelos empresários são a simplificação dos documentos exigidos pelos governos para o comércio exterior, o funcionamento contínuo das alfândegas e o treinamento conjunto dos agentes das áreas aduaneiras.
-E os empresários de boa vontade aproveitam para aperfeiçoar o Mercosul. Tanto que entre as medidas que serão estudadas pelos técnicos dos quatro países estão a identificação de mecanismos que melhorem as condições de comércio no bloco. Como disse o presidente da União Industrial Argentina, Osvaldo Rial, agora os quatro governos do Mercosul precisam avançar na coordenação de medidas macroeconômicas, até mesmo para evitar problemas como os ocorridos após a desvalorização cambial brasileira no início do ano.



Plantio racional
Dias atrás, lideranças agrícolas reunidas em Brasília decidiram recomendar aos agricultores que racionalizem o plantio na próxima safra de verão, que começa agora em outubro. Plantem apenas culturas que garantam rentabilidade.
Redução de custo
Outra recomendação é para que racionalizem o uso de insumos. Esta é uma forma de reduzir custos, segundo a CNA. Mas que também funciona como pressão ao governo através da indústria de fertilizantes, defensivos e equipamentos.
Língua enrolada
O governo quer que o produtor cante com a língua enrolada. Ele permite aumento dos fatores de produção mas não acena com mecanismo de compensação, isto é não oferece apoio algum. Afônico de tanto gritar, agricultor desta vez não quer cantar com lingua enrolada.
Utopia
Isso não passa de um sonho. Seria bom (para o produtor) se houvesse essa unidade de pensamento. Mas a agricultura também é comércio. Se há disposição de alguns de não plantar, aí é que muita gente vai e planta. E cuida bem.
Estilo Ponti
Melhor saída não é o recuo. É partir para o debate. Mas tem que ir preparado e exigir que outros segmentos da cadeia produtiva ‘‘mostrem suas planilhas’’ como fez o presidente do Sindicato Rural de Londrina, Edison Ponti.
Moral em alta
Ponti levantou o moral dos produtores através do Sindicato Rural, semeando idéias. É precursor, por exemplo, da mobilização sindical que prepara o agricultor para defender seus interesses e obter o aval da sociedade, grande aliada.

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