Oswaldo Petrin
A dívida que divide
-Os dados apresentados pelo ministro Pratini, sobre a concentração das dívidas entre um número reduzido de agricultores (ver matéria neste caderno) não chegam a ser novidade. Eles vêm sendo mostrados - sem contestação - há alguns anos, toda vez que se discute a renegociação das dívidas. E refletem a falta de critério do próprio governo na distribuição do crédito.
-O que se coloca hoje, como uma realidade difícil para o setor produtivo, é a imensa crise em que mergulharam grandes, médios, pequenos, mini, enfim todos que atuam no campo. E se um número reduzido de produtores detem maior parte do crédito, não quer dizer que a imensa maioria que ficou com fatias menores, esteja feliz. Juros, dos acertos de contas anteriores, foram iguais para todos, prazos são iguais e as mesmas dificuldades de mercado que afligem os grandes também acerta em cheio os pequenos.
-Pratini usa os dados para jogar os produtores contra a sociedade. Por que não dá tratamento diferenciado, analisando caso a caso? A verdade é que os erros dos planos econômicos - o Real não foi exceção - penalizaram muito a agricultura, sem distinguir adimplentes de inadimplentes; grandes de pequenos.
-Pratini sabe usar a mídia a seu favor. Evidente que não cabe ao governo mostrar que aquele trator que foi financiado em 5 anos, está com 80% pago e ainda tem um saldo devedor equivale ao de dois tratores. Mas existem milhares de exemplos. A política de Malan e FHC está penalizando milhares de empresas urbanas, não são apenas agricultores.
-O governo subestima a inteligência da maioria dos agricultores quando sugere que eles estão sendo usados pelos grandes devedores. Quanto ao ministro, ele próprio discorda da política monetária do governo que está empobrecendo o País. Ainda ontem, por exemplo, falou contra a CPMF na Escola Superior de Guerra.
-A julgar pelas informações do governo, é natural a reação contrária da sociedade. A decisão do governo de renegociar a dívida dos produtores rurais, inclusive a dos maiores agricultores, está dividindo a opinião dos economistas (AE, ontem). O ex-presidente do Banco Central e economista da Tendências, Gustavo Loyola, considerou a medida inaceitável. Qualquer renegociação desse tipo tem um ônus grande para o governo e beneficia um grupo pequeno de produtores, no momento em que a questão do orçamento é complicada, afirmou.
-Segundo Loyola, a disposição de negociar foi um sinal ruim para a manutenção da austeridade fiscal, até porque desincentiva quem paga. Quando o governo cria a expectativa do não pagamento, ninguém paga, explicou. O economista também é contra a generalização da regra para grandes e pequenos ruralistas. Os agentes financeiros poderiam analisar caso a caso, ver quem realmente não pode pagar por um motivo relevante, disse.
A favor
Mas o redator-chefe da revista Agroanalysis, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Régis Alimandro, afirmou que a posição do governo é correta, pois é preciso tomar alguma atitude em relação à dívida.
Não resolve
Para Alimandro, a questão da securitização não resolveu o problema dos agricultores. O governo emitiu títulos para respaldar a posição do Banco do Brasil junto aos agricultores, e o banco alongou a dívida por sete anos.
Acima do valor
O economista da FGV disse ainda que a dívida foi corrigida acima do valor real no Plano Collor e na época da securitização. O governo empurrou o problema com a barriga até chegar no ponto em que chegou.
Omissão
Deveria assumir a dianteira e dar uma solução que fosse melhor para o País, não necessariamente para os produtores. Agora perdeu o controle e tenta estigmatizar todo um setor - que produz e gera renda - em face do oportunismo de grandes devedores.
Leitores
Como o sr. Leonardo Pompéia, de Jacarezinho, muitos agricultores têm ligado para este jornal se queixando do tratamento que recebem na mídia. Deterpam tudo, diz. Mas isto é apenas consequência da desinformação.





