Oswaldo Petrin
Cinco anos de Real
-O Real é herói e é vilão, dependendo do ângulo que é analisado. Quebrou a agricultura, mas habilitou milhões de brasileiros ao universo de consumo. E tornou os consumidores mais cidadãos, ou pelo menos mais ciosos dos seus direitos. Educou o varejo. Bateu o recorde de concordatas e falências, mas - como dizem os agentes da qualidade global - era preciso um choque de competência e qualidade à gerência e ao produto nacionais. Aumentou o desemprego que fragiliza o cidadão. E aí, então, não há argumento para contrapor esta realidade. Mas seus defensores ainda dirão que desemprego sempre existiu e que, assim como a empresa não profissional tende a sucumbir, também a desqualificação da mão-de-obra fica exposta às mudanças. O Real exacerbou a competição interna, além daquela que veio no bojo da globalização.
-Defensores ou críticos, todos têm argumento de sobra para embasar suas análises sobre o Real.
-Mas, já que, historicamente, o inimigo de todos, economicamente ativos ou não, era a inflação, a balança pende, então, em favor do Plano pois a inflação não sobrevive. Mas, a que preço? Considere-se aí que nossa cultura inflacionária é forte e arraigada, que o senso de oportunismo é latente. Considere-se também que não faltaram ataques especulativos e desinformações para minar o Plano. Ele resiste.
-Não dá para falar que foi a conquista do século. Tampouco para execrá-lo. Até porque as sequelas que criou passam a ser etapas a ser vencidas, como fez FHC com o desemprego, um limão que virou limonada no palaque eleitoral. Afinal, todos não se lembram da frase quem venceu a inflação, vence o desemprego.
-Se comparado aos planos anteriores, aí sim, o Real é um vencedor. Por sinal, o Real foi um dos que provocaram menor impacto imediato. Embora, nestes cinco anos tenha afundado o País em dívida absurda. Tudo começou porque sua implantação definitiva foi precedida pela Unidade Real de Valores (URV). E teve seu caminho pavimentado pela moeda transitória - é preciso reconhecer a eficácia imediata dessa estratégia - o cruzeiro-real. A transição foi bem conduzida no alinhamento de preços e no baixo-impacto da reforma monetária. E, como reconhecem unanimemente os agentes da economia: o Real teve o mérito de não congelar os preços.
-A condução de pontos nevrálgicos, como mudança na unidade monetária, foi fundamental. A paridade entre a nova moeda e a de transição o cruzeiro-real, fixada em CR$ 2.750,00 (substituída no dia 1º/7/94 pelo real valendo um dólar) foi como pacto bem negociado com a sociedade. Outro ponto favorável: a emissão entre junho de 1994 a março de 95 de quantia fabulosa (R$ 9,5 bilhões); a limitação da correção monetária; a criação de reservas recordes que possibilitaram importar para um bom controle de preços. A engenharia da transição foi notável e ganhou a eleição. Notável, desde que não se considere a fragilização da economia a médio e longo prazos.
Âncora cambial
No conjunto de medidas sobrepujou a discutível valorização cambial expressa na paridade com o dólar (âncora cambial). Isto inverteu a situação da balança que, de uma hora para outra, tornou-se expressivamente superavitária.
Bomba-relógio
Mais tarde, o sistema monetário internacional mandaria a conta e o país ficaria mais dependente dos fluxos de capital especulativo, obrigado a pagar altas taxas de juros para investimentos de risco. A bomba foi desativada em janeiro com o ajuste.
Ajuste
Mudança de comando na política econômica (Banco Central) evitou contornos mais perigosos. Mas os gestores do programa já tinham algum know how nisto: em 1995 foi preciso criar bandas cambiais para necessários ajustes oficiais da taxa de câmbio.
Banda cambial
A diferença é que o governo àquela época manteve engessada a política monetária fazendo ajustes (mudanças da banda) dentro de percentuais muito estreitos. Hoje, a variação fica por conta do mercado. O BC monitora.
Artificial
Por tudo isso, e porque provocou mudanças de conceito, o Plano Real, no atacado, teve trajetória meritória. Não se pode perder de vista, porém, que o controle coercitivo dos preços, que reprime a demanda, é coisa de economia vulnerável.





