Oswaldo Petrin
Ilusionismo econômico
-O ministro Malan tem afirmado que a economia está dando sinais de aquecimento. Como político, Malan deve ter seus indicadores, mas como técnico, deve saber que a economia ainda não dá sinal de aquecimento. Quando muito, pode-se dizer que está saindo de uma recessão aguda, de dois a três anos, agravada pelo crash nas bolsas asiáticas - que não teve o mesmo impacto dos ocorridos em 1929 e 1987 na Bolsa de Nova York - mas fez algum estrago em economias vulneráveis como a brasileira.
-Um dos sinais da retomada de crescimento, que no Brasil só deve ocorrer - com a efetividade que justifique chamar de aquecimento - no ano que vem, é o aumento da produção industrial. Uma das formas imediatas, ainda que aleatória, de medir crescimento da produção é através da indústria de bens de capital e/ou através da demanda. Por esses indicadores só a indústria de alimentos tem crescido. Com exceção dos alimentos industrializados, nenhum dos outros 25 segmentos que compõem o setor de máquinas apresenta reação, por enquanto. Por exemplo, a indústria de eletroeletrônicos, a de equipamentos de mineração, de cimento, a de válvulas industriais, a equipamentos gráficos, motores estacionários, etc, não manifestam qualquer reação. Há um crescimento no setor de máquinas agrícolas, mas é temporário e reage neste momento em cima de uma safra um pouco melhor.
-Essas indústrias são filiadas à Abimaq, que trabalha com 26 segmentos industriais. Ao contrário do que sugere Malan, quando consegue ver sinais de aquecimento, o mercado para essas indústrias não apresenta evolução.
-Pelo seu desempenho no semestre, as indústrias devem fechar 1999 com faturamento inferior ao do ano passado. E o ano passado foi o pior dos últimos 20 anos. Como o setor não espera milagre para o segundo semestre, 1999 será o pior de 21 anos. Previsão da Abimaq.
-O presidente da entidade, Luiz Carlos Delben Leite, do setor gráfico, confirma esses dados e dá outros exemplos. Nos anos 80 o setor industrial, com faturamento bruto médio de R$ 30 bilhões, participou do PIB com um percentual que variou entre 6% e 8%. No ano passado a participação foi de 2% e deve cair mais este ano. Se nos anos 80 o faturamento médio foi de R$ 30 bi, em 1996 caiu para R$ 16,3 bi; em 1997, R$ 16 bi e em 1998, R$ 15,3 bi. Isto significa o fechamento de milhares de postos de emprego, para usar a linguagem de estatística.
-A indústria brasileira está desinvestindo, na definição de Delben Leite. No ano passado, o investimento de todo o setor de bens de capital e metal mecânico, foi de 176 dólares per capita. Isso não é muito tímido, comparado com os investimentos no mesmo setor na Coréia: 960 dólares. Ou se comparado com os 1.231 dólares da Alemanha.
-Sem investimento não há avanço tecnológico; sem tecnologia não há como competir.
Crise no varejo
Os supermercados fecham o primeiro semestre com desempenho negativo de 2%. Esperam fechar o ano equilibrado. Mas para sair do vermelho o setor terá de crescer na mesma proporção. Mas admitem que a dose de otimismo tem que ser forte.
Salários
Origem da recessão no varejo, segundo José Humberto, presidente da Associação Brasileira de Supermercados (Abras): desemprego e redução salarial que provocaram corte profundo nas compras, mantendo apenas os essenciais.
Fato novo
Novidade na crise é que o setor vendeu menos mas não demitiu. Abertura aos domingos e ampliação dos horários de expediente na semana aumentou a oferta de trabalho nos supermercados.
Consumidor
A outra novidade fica por conta do consumidor. O ajuste cambial, em janeiro, parecia detonar uma onda de aumentos. Os supermercados ameaçaram os fornecedores estimulando o consumidor a substituir a marca que reajustasse.
Fiel à marca
A infidelidade à marca inibiu reajustes de maior impacto, segundo a Abras. Com a acomodação dos preços, os consumidores voltam, aos poucos, às marcas tradicionais. Para a Abras, o consumidor hoje está mais maduro e cidadão.





