-Se até agora o governo relutou em tomar medidas de restrição ao consumo, isto terá de acontecer este ano, no mais tardar no segundo semestre. Só que, ao contrário do que fizera em tempos de inflação, não poderá lançar mão de instrumentos de política monetária - como aumento das taxas de juros - que inibiam o consumo e estimulavam a poupança. O dinheiro mais caro do mundo, embutindo as taxas de risco mais largas do mundo, era o do crédito direto ao consumidor (CDT), ou crédito pessoal, feito em geral pela financeira da mesma loja de departamentos vendedora da mercadoria. A loja vendia, a loja financiava com taxas escorchantes com respaldo do Banco Central. O dinheiro tinha uma finalidade: financiar o déficit público.
-Achar que a estabilidade econômica eliminou definitivamente a ciranda, não é totalmente verdadeiro. A cumplicidade do consumidor ou tomador do empréstimo é que diminuiu. Neste ano de 97, está surgindo um novo perfil nos empréstimos do sistema financeiro que descobre o consumidor - o emprestador da ponta - como novo alvo. No ano passado, o crédito ao consumidor já vinha crescendo rapidamente. O fato é que os bancos (e não mais o governo que recorria ao overnight para financiar seus déficits) estão se voltando cada vez mais para o crédito à pessoa física, o que deverá resultar na queda dos juros deste tipo de empréstimo.
-Evidente que a queda de juros remete para um estímulo à demanda. Já existem números mostrando o aumento na tomada de crédito por parte da pessoa física. O saldo total dos financiamentos para pessoa física atingiu R$ 21 bilhões no final de janeiro deste ano, contra R$ 12,5 bilhões no mesmo período de 96, segundo a ‘‘Agência Estado’’. O aumento dos empréstimos ocorreu somente para o segmento de pessoas físicas, enquanto outros tipos de empréstimo bancário mostraram um desempenho fraco. O saldo do crédito ao comércio estava no final de janeiro em um patamar inferior ao verificado no mesmo período do ano anterior, que foi de R$ 22,9 bilhões. Os financiamentos à indústria também sofreram retração no início do ano, voltando aos níveis de outubro do ano passado.
-A queda nas taxas já aconteceu nos financiamentos à indústria, que está encontrando empréstimos mais baratos no exterior. É justamente essa queda de rentabilidade nos empréstimos às empresas que estaria, segundo especialistas, levando os bancos a se voltarem mais para as pessoas físicas. Há quem aposte em taxas estacionadas em torno de 6% ao mês, o que ainda é um bom juro. A entrada de um grande grupo internacional no mercado de varejo bancário aumenta a tendência de uma maior concorrência de empréstimos à pessoa física e a futuras reduções nas taxas de juros. A tendência de redução dos juros é puxada pela competição entre os bancos, que nunca foi tão acirrada.



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