Oswaldo Petrin
Multinacionais da soja
-Quem tem medo das multinacionais oleaginosas?
-É ilusório achar que, absorvendo as indústrias menores no setor moageiro de soja, os grandes grupos vão dominar o mercado e impor suas próprias regras, o que, aliás, já acontece. Esta preocupação não pode pretender alimentar a animosidade contra o capital estrangeiro, sem passar pelo conceito de economia global. Isto teria cabimento 20 anos atrás, conforme denúncia feita àquela época por Kurt Rudolf Mirow, no seu livro A Ditadura dos Cartéis - anatomia de um subdesenvolvimento. Hoje a globalização se encarregou de descaracterizar (ou, então, referendar definitivamente) oligopólios e descartar xenofobismos. Hoje o mercado admite tudo, exceção apenas para a falta de competitividade (eufemismo de incompetência, segundo analistas modernos).
-Debitar à Lei Kandir a perda de competitividade da indústria nacional parece impertinente, nesta altura. A desoneração do ICMS beneficiou um grande número de agentes econômicos e a sociedade, indiretamente, e penalizou um número infinitamente menor. Uma questão de custo-benefício, portanto.
-O eixo da industrialização é deslocado para os grandes grupos. A princípio ninguém pode dizer que o País deixa de exportar (menos) manufaturados para a exportar (mais) matéria-prima, sem valor agregado. Da mesma forma que multinacionais não têm o mérito do influxo adicional de receitas, também não se pode dizer que o País, de repente, simplesmente deixe de industrializar por culpa delas.
-E, depois, não há nenhuma novidade na concentração da indústria. Afinal, o atacado do comércio agrícola em geral é concentrador, independente da nacionalidade de quem compra. Os fornecedores se defrontam sempre com pequeno número de compradores e não têm condição de defender seus preços de venda. Isto é histórico. Uma tentativa de reduzir - não acabar - com esta estrutura, digamos, oligopolítico-oligopsônica, seriam as cadeias produtivas. Mas a indústria já mostrou que não está preocupada com essa visão conjunta do agronegócio. Seu ganho é excludente. Não há parceiros, há concorrentes. Melhor exemplo é o do milho, dois a três anos atrás: o aumento da produção arrebentou dezenas de produtores porque os preços desabaram. O único papel da indústria foi comprar na bacia das almas como se costuma dizer no interior.
-Se desaparecerem pequenas indústrias de extração de óleo (tomara que não!) encampadas por grandes grupos, pouca coisa muda no mercado da soja - há muito tempo concentrado entre quatro grandes indústrias - porque, mesmo hoje, as pequenas fábricas representam, somadas, uma porcentagem menor na industrialização. Com ou sem o aumento da concentração da moagem e extração de óleo, o setor soja não será mais monopolista do que sempre foi. O assunto, aliás, remete para uma discussão de conceito. Oligopsônio é a definição mais apropriada para o setor soja no Brasil porque está inserido num tipo de estrutura de mercado em que poucas empresas de grande porte - não mais que quatro ou cinco - são as compradoras da matéria-prima. Como todo oligopsônio, o mercado comprador é muito concentrado, com poucas e grandes empresas que negociam com pequenos, porém, numericamente grandes fornecedores.
Parceiros
De José Aroldo Galassini, presidente da Coamo, sobre crescimento das multinacionais no mercado da soja: O desafio para as cooperativas que atuam na soja é fazer parceiras com essas megaempresas e não concorrência.
Atuação
Segundo Galassini (à repórter Vânia Casado, deste jornal) as empresas multinacionais são muito agressivas nas compras da produção, mas cabe às cooperativas manter a confiança do produtor através de benefícios como assistência técnica.
Renda
A cooperativa consegue maior volume de produto para negociar com esses grupos multinacionais que não chegam na ponta na produção. O que vai determinar o bom relacionamento no mercado é a rentabilidade do produtor, diz Galassini
Forte
Coamo tem razão para não se preocupar: é a maior do País, responsável por 16% da produção de soja do Paraná (7,7 milhões de t. na safra 98/99). A cooperativa industrializa 10% em duas indústrias próprias e outras duas, arrendadas.
Quem perde?
Produtor não perde, necessariamente, com o domínio do mercado por empresas de fora. O mercado, com margens de lucro cada vez mais apertadas, requer conhecimento e informação. Não importa para quem se vende.





