Juros sem capital
-Sucessivas quedas nas taxas de juros não foram suficientes, ainda, para a retomada da atividade econômica em níveis desejáveis. O que se comemorou, dias atrás, foi a queda do ritmo inflacionário, quando todos os prognósticos projetavam até 12% ao ano. Na verdade, inflação tão comportada está mais para sinalizador de recessão do que para indicador de estabilidade. Pelo menos no caso brasileiro.
-Mas, vejamos a trajetória dos juros. Nas primeiras reduções da Selic, em abril, os agentes econômicos consideraram que os sinais de recuo das taxas ainda eram tímidos e não chegariam a transparecer nas diversas modalidades de crédito: ao consumidor, pessoal, crediário do comércio, etc. Dito e feito, porque as taxas comerciais ainda têm que embutir o risco da inadimplência.
-Sem resposta, o Comitê de Política Monetária promoveu mais duas reduções, chegando a 23,5% ao ano, na semana passada, menos de um mês depois de tirar as taxas da extratosfera dos 49%. As lojas de eletrodomésticos chegaram a sonhar com filas no crediário. Mas a indústria, que não é boba e trabalha em cima de prognósticos de quase um ano à frente, não aumentou a produção. Se a inflação foi domada, a recessão é que passa a ser cultural agora.
-Embora ainda paguemos os juros mais altos do mundo, o problema não são as taxas insuficientemente civilizadas. Mas o próprio ambiente econômico, que permite um círculo vicioso. Ou seja: as taxas menores não chegam até o mercado porque a economia, ainda recessiva, mantém alto índice de inadimplência. E a economia não sai da recessão porque não há crédito para girar e reativar demandas de bens, sejam duráveis ou não-duráveis. Então a questão não é que o custo do dinheiro continue inviável para investimentos. A busca de capital de giro - aquilo que o médio e pequeno empresário fazem para repor estoques ou fortalecê-lo - é que não se recupera em função da recessão expressa no desemprego e baixos salários.
-No interior, o efeito dessa falta de liquidez é mais visível. Enquanto nos grandes centros a economia é mais heterogênea e ainda pode respirar com reações localizadas, o interior não, o interior está em plena entressafra de tudo e o governo não tem recurso para a safra de inverno, que já foi uma alavanca através da agroindústria. Já foi, não é mais.
-Os próprios bancos não se entusiasmam muito com a queda de taxa. Muitos deles, até reduziram o crediário, o que é contraditório. Neste momento eles querem é reduzir os riscos. O pouco dinheiro disponível para financiamento é empregado preferencialmente nas seguintes condições: 1) prioridade para empréstimos lastreados em ‘‘recebíveis’’ via carteira de cobrança em que o banco tem em mãos dois lastros o de quem é cobrado e o de quem cobra que, em última análise, é uma espécie de avalista. 2) Os bancos estão condicionando a renovação de um empréstimos à amortização de pelo menos 20% dessa dívida. Ou até mais, dependendo do cacife do cliente.

Selic
É o Sistema Especial de Liquidação e Custódia ou, tradizindo, é o registro de crédito e débito das operações financeiras do mercado interbancário na liquidação de títulos, cheques, etc.
Liquidez
No interior, há um consenso - do empório da esquina ao hipermercado -, que na entressafra ‘‘não corre dinheiro’’, numa alusão à ausência de liquidez no comércio. Por esta razão é que o crédito à produção (que nunca chega a tempo) é importante.
Pelo ralo
Obviamente que em Brasília, por exemplo - porque sempre há muito dinheiro -, a expressão é completamente desconhecida, afinal, lá, ao contrário do interior, o dinheiro corre solto. Até pelo ralo.
Recursos
Por falar em dinheiro para o interior, o presidente do Sindicato Rural de Londrina, Edison Mazei Ponti, voltou de Brasília otimista. Reuniões na CNA aprovaram propostas para captação de recursos através de novos mecanismos. Ele deve falar hoje sobre o assunto.
Espiral
Ponti prevê mais uma safra com dificuldades. Depois, a captação de recursos, através de outras fontes, se encarregará de capitalizar o setor e garantir preços e crédito à produção. Ele trabalha com esses mecanismos.

mockup