-Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Em economia, o que não falta são prognósticos pessimistas. Sempre há um acadêmico de plantão para predizer que tal medida não vai dar certo e que o caos é iminente. Alguns parecem não analisar, mas torcer por fracasso.
-Mas o governo também exagera no seu otimismo e ilude boa parcela dos brasileiros, além de puxar o tapete de agentes econômicos toda semana. Nos últimos três dias, o presidente Fernando Henrique Cardoso, o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Michael Mussa, e o diretor-gerente da instituição, Michel Camdessus, repetiram o mesmo refrão: o pior da crise financeira já passou e o Brasil já está a caminho da recuperação.
-Mas para o presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, ainda não há motivo para tanta comemoração.
-Apesar de as cifras indicarem uma retomada do crescimento econômico dos países, no próximo ano, na vida real a situação é menos otimista, disse Wolfensohn ontem. Uma das consequências mais dramáticas da crise financeira foi o aumento da pobreza mundial, agravada pela escassez de recursos para financiar o desenvolvimento. Segundo ele, o número de pessoas que vivem com menos de um dólar por dia, aumentará de um bilhão para 1,5 bilhão no final deste ano.
-Por isso mesmo, Wolfensohn foi mais comedido ao falar da reversão da crise financeira. ‘‘Não quero que pensem que os problemas para as pessoas pobres acabaram’’, disse, em entrevista à repórter Monica Yanakiew, Agência Estado.
Segundo ele, enquanto os preços das commodities permanecerem baixos e os recursos para financiar o desenvolvimento forem escassos, é cedo para cantar vitória.
-Segundo Wolfensohn, o Brasil ‘‘é um bom exemplo’’ de como a crise afeta os mais vulneráveis: os desempregados, as crianças de rua e os camponeses. ‘‘Essas pessoas dependem do Estado’’, lembrou. Ou seja, a pressão por programas sociais de educação e saúde aumenta, especialmente agora que o número de desamparados é maior, mas os recursos são mais escassos.
-Um dos temas das reuniões que começam no próximo domingo, para discutir a ‘‘nova arquitetura’’ do FMI e do Banco Mundial, será justamente a maior participação do capital privado para ajudar a prevenir e atenuar crises. Mas Wolfensohn manifestou sua preocupação com essa questão. O problema, disse ele, é que num momento de crise os capitais privados são os primeiros a sair. Será necessário encontrar uma fórmula para atrair investimentos e mantê-los lá. Mas, segundo ele, se investidores forem colocar mais dinheiro nas economias em desenvolvimento, pedirão em troca garantias de que não serão lesados - algo que os governos ou as instituições internacionais não podem dar.


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