É consenso que os governos, e os políticos que os compõem, têm mais sorte do que juízo. Mas, como na letra de Vinícius ‘‘o perdão também cansa de perdoar’’, um dia a sorte pode se cansar de bafejar os dirigentes que (lembrando a ‘‘Regra Três’’ do grande poeta), abusam de tantas regras que pautam a prudência e sensatez.
Ontem, ouvi de um empresário paranaense do ramo hoteleiro e da agropecuária, a preocupação de que os efeitos de tanta incompetência e abusos abeirando escândalos, podem sair do âmbito político e respingar forte na atividade empresarial. O empresário falava da decadência de administradores em todas as esferas, municipais, estadual e federal. Não foi difícil, em poucos minutos, relacionar focos de irregularidades ou decisões mal-explicadas envolvendo fortunas. O episódio Banco Central e seu ex-presidente Francisco Lopes, é apenas um exemplo, do âmbito federal. Compromete a todos.
Enfim, nos cafezinhos ou nos escritórios, o setor produtivo está preocupado com episódios que tirem a rotina da atividade econômica, mal refeita de impactos tão fortes, como os vividos nos últimos meses.
Nas ruas, ontem à tarde, aspirava-se receio. Chego à Redação e vejo que a CPI dos Bancos sai do eixo (político) e já preocupa o mercado. A Agência Estado mostra depoimentos de operadores do mercado, preocupados com o risco de toda a mobilização realizada até agora dar em nada, e o mercado começar a emitir sinais de nervosismo, podendo levar o Banco Central a amargar novas perdas no câmbio. No clima, o editor de Economia, Aurélio Albano, comenta as oscilações do dólar, reagindo com nova ascensão no expediente da tarde. Fechou em R$ 1,73 (2,96% sobre a cotação de segunda-feira).
O quadro é tão sensível que os agentes econômicos se sentem aliviados quando a equipe econômica viaja ou então deixa de se reunir. Mas, ontem, o alívio que o mercado sentiu durante o dia ao saber que o governo será esvaziado a partir de hoje - com as viagens do presidente e diretor de assuntos internacionais do BC, ministro da Fazenda e secretário do Tesouro Nacional - transformou-se, no final do dia, em apreensão, porque se de um lado parte da equipe econômica estará protegida dos respingos da CPI, de outro lado o presidente FHC será dono e senhor da razão. O mercado teme o vôo livre do presidente, que pode colocar involuntariamente a equipe econômica em ‘‘corner’’ se insistir no discurso dos últimos dias, antecipando projeções macroeconômicas e resultados da política fiscal - como o superávit primário do primeiro trimestre anunciado ontem.
O governo está passando a idéia de que chegará ao final do ano com superávit e, portanto, com fôlego para manobrar bem a economia. Porém, conforme a AE, o mercado fica arrepiado com a confusão de conceitos e não disfarça o receio de que o governo FHC comece a vender nuvem engarrafada, subestimando o bom senso dos investidores estrangeiros que começam a revelar interesse crescente em montar posições em ativos brasileiros.


Soja/Paraná

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