Oswaldo Petrin
O presidente Fernando Henrique Cardoso elegeu a nova âncora para o Plano Real: o povo. O povo, combalido, tem que se preparar agora para novos sacrifícios. Afinal, a âncora anterior, a verde, quase quebrou a agricultura.
Mas é natural que a nova âncora também tenha uma cor. Poderia ser vermelha, de raiva, ou - para as camadas mais pobres e desempregadas -, a amarela, da palidez que prenuncia a inanição.
Esta escolha política (ele se referiu ao povo, como no palanque eleitoral, não ao consumidor) é algo mais do que a busca da cumplicidade da população nos destinos da política econômica.
Lembrando o fiasco dos fiscais do Sarney, no Plano Cruzado, em 1986, vale dizer que é temerário esse tipo de apelo. Uma coisa é o consumidor cada vez mais cioso do seu direito e consciente para controlar seus impulsos consumistas. Isto é positivo. Outra coisa, profundamente negativa, é o apelo à renúncia, ou a comportamentos que reprimam seus desejos de comprar e consumir, um exercício, aliás, salutar.
Como a nova âncora surge de um rasco de inteligência política, certamente nada de (mais) grave ocorrerá com a economia. A opção de FHC deixa entrever um certo otimismo. De fato, a economia, felizmente, dá sinais de reversão. Mas, daí a ensejar comemorações, vai muito tempo.
De âncora em âncora, o governo consegue aumentar a sobrevida do plano. Mas todas elas desembocam em sacrifício do povo. A cambial foi o instrumento de política monetária utilizado para estabilizar o valor da moeda fixando seu valor na taxa cambial. O Plano Real manteve o dólar na paridade. O erro foi fazer a âncora inflexível, mal levando em conta a inflação da moeda norte-americana. Funcionou bem enquanto o País podia dispor de reservas suficientes - como no início do Plano Real - e um balanço de pagamento favorável. No mais, o instrumento monetário é empregado em situações de inflação acelerada ou de hiperinflação, que não era o caso.
O uso de instrumento monetário valeu para estabilizar o valor da moeda interna, porém numa conjuntura estável, o câmbio poderia ser flexibilizado e a âncora afrouxada.
Mais importante do que frases de efeito - como esta de atribuir ao povo parte da responsabilidade pelo plano -, é o empenho do governo. E qual a partilha do governo? FHC entrega o bastão ao povo, mas isto não lhe dá o direito de empurrar com a barriga as premissas da estabilidade econômica: a tão decantada reforma fiscal, por exemplo. Há que se adotar medidas firmes capazes de recuperar a credibilidade do governo e, só assim, conseguir a adesão dos consumidores naquilo que lhe é pertinente. Nada que reedite, ainda que em versão civilizada, o espetáculo dos fiscais do presidente.
E o dólar?





