-De Torres e Tramadaí, no RS, à bela São Luiz (MA), nossas praias estão tomadas de argentinos, ainda mais agora, com a desvalorização da moeda, que os argentinos, individualmente, gostam e globalmente abominam. Afinal, quando o ajuste do câmbio mexe com o mercado, ‘‘la plata’’ não é mais a mesma, e a coisa pega. Tanto que, já pediram para março, uma reunião de empresários dos dois países para discutir políticas setoriais capazes de atenuar os impactos da desvalorização do real sobre o comércio entre os dois países. Os argentinos querem novas normas para os setores têxtil, alimentício, calçadista e automobilístico.
-Por que será que os argentinos não se incomodam com as commodities agrícolas, ou lácteos, por exemplo? Cerca de cinco anos atrás, o Paraná levantava a questão do trigo. O cereal brasileiro não podia continuar sendo moeda de troca para manufaturados. Indiferente às críticas o governo brasileiro manteve sua opção preferencial pelo trigo - assim como a maçã - argentinos. E deu no que deu. Milton Alcover e outros técnicos viram trigo argentino despejado em moinhos do Paraná: paus e pedras, entre outras impurezas.
-Aliás, o castigo está vindo a cavalo. Ontem foram divulgados dados sobre a balança comercial agrícola do Brasil, ano passado, com os demais países do Mercosul: um enorme déficit de US$ 2,7 bilhões, com exportações de US$ 1,1 bilhão e importações de US$ 3,8 bilhões, de acordo com a Secretaria de Política Agrícola do Ministério da Agricultura. A maior parcela do déficit, cerca de US$ 2,3 bilhões, resultou do comércio bilateral com a Argentina, onde as importações brasileiras foram de US$ 2,8 bilhões e as exportações para o País atingiram apenas US$ 484 milhões.
-Desde a formação do bloco a balança comercial agrícola brasileira vem registrando sucessivos déficits com os parceiros do Mercosul e essa situação deve continuar, apesar da desvalorização cambial, na avaliação de especialistas do setor agropecuário. ‘‘Vamos ter de continuar importando trigo e arroz dos argentinos porque é mais econômico’’, observa o chefe do departamento de Comércio Exterior da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), Antônio Donizeti Beraldo, à Agência Estado, ontem.
-Apesar da evidência dos dados, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI) Fernando Bezerra - um dos representantes do Brasil na mesa de negociações - acredita que é muito cedo para analisar a necessidade de acordo em todos os setores, já que a valorização cambial do dólar sobre o real ainda não está definida. ‘‘Somente dentro de 60 ou 90 dias poderemos ter uma idéia da estabilização do câmbio’’, afirma Bezerra.
-Ora, um dos principais sotores da economia - a agricultura - que salvou a balança comercial de um gigantesco déficit durante o Plano Real, ou pelo menos em 1997 e 1998, sofre o golpe do Mercosul não é de hoje. Sua desvantagem está acima da flexibilidade cambial, portanto.


Soja/Chicago

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