-A mudança de regime cambial impôs alterações ao mercado e, pelo menos até agora, confundiu razoavelmente a todos que atuam no setor: produtores, intermediários, operadores do mercado de commodities, enfim, setores e subsetores do agronegócio. No caso dos preços pagos ao produtor, enquanto prognósticos apontam aumento linear, na mesma proporção do ajuste, já existem sinais nítidos de que isto não se confirmará. Há outras variáveis a ser consideradas pelas quais pode-se inferir que o novo câmbio não converte os benefícios esperados.
-A primeira constatação ocorre com o trigo: há tendência de aumento da área mas vai ser difícil encontrar sementes de boa qualidade em quantidade suficiente. Além disso, ainda que o dólar se estabilize, nos mesmos níveis alcançados após o ajuste, um possível aumento no preço do trigo nacional vai colocá-lo no mesmo patamar do produto importado, o que não garante competitividade suficiente para contrapor o fator qualidade. Neste caso, o aumento do custo de produção não pode sofrer alteração, o que, aliás, é difícil.
-Passadas algumas semanas da flexibilização do câmbio, feita no dia 12 de janeiro, verifica-se que a melhoria das condições de competição de alguns produtos internos (algodão, arroz, milho e toda a linha dos lácteos) não está ocorrendo. O mercado continua meio difuso e demandará algum tempo ainda para clarear a tendência de cada item.
-Outras desinformações ocorrem com relação aos preços de insumos. Distribuidores e até algumas cooperativas, talvez para justificar eventuais aumentos de preços, logo nos primeiros dias após a mudança do câmbio, trataram de prever alta de fertilizantes. O argumento: aumento nos preços das matérias-primas usadas pelas indústrias misturadoras. Só que os preços externos de sulfato de amônio, por exemplo, caíram até 50% no segundo semestre do ano passado. Um diferencial capaz de anular qualquer reflexo do ajuste cambial. Os analistas citam ainda a uréia (-30%) e o cloreto de potássio, incluído entre os itens que seriam aumentados, na realidade mantém preço estável desde meados do ano passado.
-O efeito direto da mudança cambial não se resume a estes itens. Variações mais fortes ocorrem, por exemplo, nos defensivos agrícolas. Mas, na outra mão do mercado, o aumentos esperados para as commodities soja e suco de laranja, não se confirmaram; ao contrário até recuaram para alguns desses itens, caso do próprio café que, a despeito da escassez dos estoques, viu suas cotações desabarem em dias seguidos, para se recuperarem esta semana. Nada que não possa ocorrer em tempos normais. Nos dias seguintes à mudança, o café deu um salto de 34%, mas foi movido por forte componente especulativo.
-A julgar pelo cenário, não definitivo, qualquer prognóstico de aumento da renda do setor fica comprometido e pendente de confirmação. O cenário só será suficientemente delineado após o primeiro trimestre. Março será um divisor para essas previsões pois terá incluído outra variável importante na análise conjuntural: o resultado da safra já devidamente mapeado e contabilizado.


Resumindo:
A mudança no câmbio, num primeiro momento, refletiu parcialmente o diferencial da desvalorização da moeda nacional. Mas não delineou suficientemente o mercado no médio e longo prazos. As altas se expressam nos produtos de exportação.
No entanto...
Apesar desta falta de clareza quanto à tendência do mercado, pelo menos oito produtos tiveram alta de preços nos últimos 15 dias: arroz, café, milho, soja, trigo, aves, boi gordo e suínos. Cana, cebola e leite se mantêm estáveis.
Custo
Produtos demandadores de insumos importados que deveriam sinalizar altas (embora não reflitam o comportamento do mercado externo), mantêm seus preços estáveis ou estão em queda. Exemplo: algodão, banana, batata, tomate e ovos.
Quedas
A maior alta foi para o café (17,27%) e queda mais forte ocorreu para o preço do feijão (menos 26,63%), devido à aceleração da colheita da primeira safra 98/99. Os dados são do Instituto de Economia Agrícolas de São Paulo.
Média
Os preços recebidos pelos produtores nacionais, segundo a mesma fonte, subiram 2,36% na primeira semana de fevereiro, em alta de 2,43 pontos percentuais em relação à queda de 0,07% observada em janeiro.

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