-Com a nomeação do novo presidente do Banco Central, a barreira que se interpõe entre o governo e os agentes financiadores fica parcialmente superada. A crise não está, nem de longe vencida, contudo. Ainda ontem, o sr. Stanley Fischer, vice-presidente do FMI, considerou ‘‘insuficiente’’ as informações que obteve do governo brasileiro sobre a situação da economia.
-Mas há sinais positivos, como o comportamento do dólar na terça-feira, por exemplo. Pena que ontem esteve num nível indesejável (veja cotações neste caderno). Mas o câmbio, embora gerador e ainda no centro da crise, é apenas uma das vertentes. Depois de instalado o caos no início de janeiro, surgiram outras nuances, como o fator credibilidade e descontrole dos preços dos importados.
-Mas, pare onde parar o dólar - a especulação ainda tem uma certa sobrevida - e o estrago que tinha de fazer já fez: a) inflação sai do seu longo período de dormência, b) a queda na atividade produtiva gera desemprego, c) insumos para agroindústria estão mais caro e vão transparecer no preço final, d) criadas as oportunidades, os aproveitadores estão remarcando preços, etc.
-O estrago sobre o setor que depende de importados é visível. Mas de uma forma ou de outra, com similar nacional, o comércio está se adequando. Só as indústrias de base - poucas - que não puderam evitar os importados estão em situação mais difícil. E como a pressão sobre seus custos dificilmente poderá ser repassada para a ponta do consumo, o diferencial será administrado via enxugamento em despesas de pessoal e outras reduções de custos para quem ainda tem gordura a cortar. (Segundo o Sebrae todas as empresas têm sempre muita gordura a queimar).
-Quanto ao governo - que capitulou feio diante da crise - ele continua devendo à sociedade o que se convencionou chamar de ‘‘lição de casa’’. Ainda não passou pelo necessário e urgente choque de confiabilidade, nem a confiabilidade interna, combalida diante da falta de reação às críticas mais descabidas; nem a confiabilidade externa, a despeito da boa vontade em nomear para o Banco Central um presidente cujo perfil é o desejável para o FMI e credores.
-Choque de credibilidade, se o governo quiser e mudar, pode ser dado através de um ataque fulminante à dívida interna, ao esfarrapado estado das contas públicas. Para isto poderia, por exemplo, adotar uma política fiscal mais austera do que as que se conjecturou até agora. O governo poderia surpreender até o próprio FMI e encher-se de moral. Dado o exemplo, poderia - se sério fosse - exigir uma reforma drástica nos Estados e municípios. Mas isto seria um sonho demasiado pretensioso para este governo, apático e pouco dinâmico em circunstâncias como estas.
-Sem isto - choque de credibilidade moral, via reforma fiscal - o pânico volta agudo. Será difícil acreditar que, depois de errar bisonhamente e permitir que o câmbio chegasse onde chegou, o governo ainda deixe escapar a oportunidade de deixar o plano cair em pé.


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