-O ex-presidente do Banco Central, Afonso Celso Pastore, acredita que o Brasil só resgatará sua credibilidade se fizer um choque fiscal. Sem um corte drástico de seus gastos, o governo não conseguirá conter uma escalada inflacionária e o agravamento da recessão interna brasileira. Pastore sugere uma política fiscal ‘‘mais austera’’ do que a proposta no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) e em processo de votação no Congresso.
-‘‘Quando voltar a confiança no País, voltam os investidores externos’’, afirmou Pastore - disse Pastore, à Agência Estado - prevendo que a recessão neste ano será maior do que 1%. Segundo ele, o fluxo cambial não voltou, porque há um ‘‘hiato de credibilidade’’ já que o governo tem dificuldades fiscal, externa e de drenagem de recursos desde o começo da crise financeira.
-Sem arriscar números, Pastore também espera a volta da inflação. Ele citou previsões de bancos privados que estimam uma inflação acumulada em 99 de 35%. Segundo ele, o governo ainda ‘‘não falou direito sobre o assunto’’, embora o ministro Pedro Malan tenha estimado uma inflação de até 10% em 99. ‘‘A Fipe ainda não fez as contas’’, acrescentou, referindo-se a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, que reviu ontem sua previsão de uma inflação de 6% para 8%.
-‘‘Ninguém tem certeza de uma previsão’’, acrescentou o economista, dizendo que a previsão dos bancos, baseada em cálculos, leva em consideração a desvalorização do real deste momento, que já ultrapassou o patamar de 50%. Ele ponderou que alguns preços internacionais, como o do trigo, já subiram, tendo já atingido inclusive o consumidor final.
-Pastore não arrisca em qual patamar ocorrerá a estabilização do real frente ao dólar. Segundo ele, houve uma desvalorização excessiva da moeda brasileira, porque a decisão de adotar a flutuação ocorreu, quando a credibilidade do País ‘‘já estava destruída’’. A falta de credibilidade também seria a justificativa para a contínua saída de dólares do País. ‘‘Em algum momento vai haver um preço e a cotação recuarᒒ, afirmou explicando que qualquer estimativa sobre que prazo será esse é apenas um palpite ou desejo. ‘‘Poderá ser um preço muito alto.’’ Pastore descarta a possibilidade do Banco Central adotar a centralização cambial como forma de solucionar a crise cambial. ‘‘O custo é muito grande. É uma moratória que vai provocar sérios danos ao País’’, disse.
-Pastore acha que o risco da decretação de uma moratória interna é muito pequeno. Seria a última opção do governo por ser uma medida muito custosa, que provocaria um dano imenso no patrimônio das pessoas. Antes de optar por uma moratória o governo, de acordo com Pastore, tentará resolver a crise através de um choque fiscal e, caso ele não ocorra ou não dê certo, o governo emitiria moeda. Pastore acredita que o governo deve adiar seu calendário de privatizações até que a presente crise financeira esteja equacionada.


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