-É possível que, para proteger o real diante de uma evolução do dólar além do que considera administrável (com a banda cambial liberada, ontem, o mercado paralelo apresentou reação imediata), o Banco Central tenha que aplicar, já na segunda-feira, um novo aumento nas taxas de juros. Seria para compensar a aplicação do dinheiro no mercado de capitais e evitar uma debandada para a moeda norte-americana.
-Uma alta precipitada do dólar no mercado aberto seria o único foco inflacionário decorrente do ajuste. É verdade que as mudanças vão respingar em todos os setores, mas nada mais justificaria maior impacto. Portanto, parece exagerado prever o retorno da inflação, como já estão dizendo, e como admitiu a ABRAS, associação dos supermercados. A menos que os agentes detentores dos preços - como a indústria e os supermercados - venham a conspirar contra a estabilidade. Afinal, com exceção dos insumos agrícolas e do trigo, nada mais existe de concreto para pressionar preços da cesta básica, por exemplo. Há artifícios e formas de justificá-los, isto sim. Sabe-se que o setor de massas, por exemplo, quer repassar além do equivalente ao ajuste cambial que será aplicado na matéria-prima importada. Alegação é de que o mercado havia absorvido reajuste de mão-de-obra, combustíveis, etc.
-Se isto acontecer, o consumidor vai reagir, reduzindo as compras.
-Os importados sim. Mas eles ainda são uma parte pequena, cerca de 2%, no universo de itens de um supermercado de porte médio. Em 1996, no auge da gastança, os importados representavam quase 4%. Mas tanto a sedução do novo como o poder de compra caíram muito. Hoje, importado é algo que se aproxima do supérfluo. O consumidor deslumbrado saiu de cena e fincou os pés no chão.
-Para os que pretendam pegar carona na esteira do dólar, é bom lembrar que quem estabelece as regras do mercado é a lei da oferta e procura e os executores desta lei estão hoje despojados do ímpeto de três anos atrás, quando ainda se inclinavam para os ‘‘made in’’ qualquer coisa.
-Parece razoável, contudo, a previsão do presidente da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), da Universidade de São Paulo, Juarez Rizzieri, de que a desvalorização do real provocará uma inflação acumulada de 7% durante 1999.
-O impacto da desvalorização não será maior porque a economia está desaquecida. Caso contrário, a inflação poderia superar 11% no ano. Rizzieri disse que será necessário manter austeridade nas políticas monetária e fiscal, para evitar a disparada dos preços.
-De imediato, a Fipe aponta os combustíveis como o setor que contribuirá para o aumento da inflação nos próximos meses. Isso porque a Petrobrás depende de importações. Mas os preços do petróleo lá fora estão bem mais baixos do que os preços internos.


Banda/preços

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