Oswaldo Petrin
-O novo discurso do ministro da Agricultura, Francisco Turra, é o fortalecimento do agribusiness. O governo quer fomentar as atividades econômicas do setor primário e organizar a comercialização. Há um leque infindável de setores a serem atacados.
-O enfoque é atualizado mas não se sustenta sem medidas estruturais. E medidas fora do setor, longe do alcance do ministro. Uma delas, macroeconômica, é a questão dos juros. Para a realidade de hoje, a taxa de juros de longo prazo (TJLP) em 12,84% ao ano, é alta se considerar, por exemplo, que os empréstimos sobre os quais se paga TJLP vêm ora do Fundo de Amparo ao Trabalhador, ora de empréstimos externos com taxas internacionais infinitamente menores.
-Além de ter que mexer nos juros cobrados para custeio ou investimento no campo, um plano que implemente negócios nessa área teria de contemplar a ponta do consumo. O abastecimento no Brasil esbarra num problema que poderia ser chamado segurança alimentar conceito estabelecido pela Associação Brasileira de Agribusiness (Abag), a quem, aliás, o governo poderia recorrer para estruturar seu plano.
-A questão da segurança alimentar é um dos pontos fortes, um dos fulcros, dos problemas de produção e consumo. Sustentação da estabilidade, expansão sustentada do mercado interno, distribuição de renda e a própria redefinição do papel do Estado na política de abastecimento, tudo isso passa pela segurança alimentar, como necessidade imediata.
-Segurança alimentar, com planejamento de médio e longo prazos, não é socorro alimentar, que atende problemas pontuais e imediatos, de forma paternalista. O Programa Comunidade Solidária, por exemplo, é bem-aceito, mas é um programa pontual, efêmero, limitadíssimo. Atende a bolsões de pobreza e ajuda a indústria de derivados (moageira de trigo e milho, por exemplo), a garantir demanda para sua produção. Mas é um programa que se esgota num ou dois governos.
-Por outro lado, premiar apenas a ponta da demanda com aumento do consumo interno, potencializando uma demanda reprimida, é uma vertente, apenas. Como o ministro Turra, dias atrás, usou o termo agribusiness, naturalmente para sentido de amplitude ao seu programa, vale remeter para a verdadeira extensão desse conceito, que começou a ser discutido nos Estados Unidos em 1957. Os professores Ray Goldberg e John Davis cunharam o termo agribusiness para questões bem mais amplas. Pressupõe, no caso do Brasil, uma revisão das políticas agrícolas, crédito e abastecimento.
-Com o neologismo, pretendeu-se incorporar num único conceito todos os agentes do agronegócio, começando na semente e terminando na gôndola do supermercado, ou, mais radicalmente, na mesa do consumidor. Se o ministro Turra quiser, realmente, executar seu projeto terá, primeiro, que sanear os gargalos das cadeias produtivas (pelo menos) dos produtos que pretende priorizar. Sem esse diagnóstico, não vai longe, apesar da boa idéia que o enfoque sistêmico projeta.





