-O primeiro dia ativo do ano começou com greve. O episódio dos metalúrgicos da Ford, ontem cedo, mostra que, mesmo abrindo mão de alguns benefícios para garantir a empregabilidade, está difícil superar a recessão, ainda que todos os agentes econômicos - e não apenas patrões e empregados - cedam em seus direitos ou ganhos diferenciais.
-É uma dica do que pode ser 1999. O PIB encolhe 1,5%, a atividade econômica, meio dilacerada, continuará a reboque dos juros que se manterão nos atuais patamares, embutindo o risco da inadimplência do tomador; o ajuste do câmbio ficará em tímidos 7% a 8%, sem fugir do que acontecera até agora - passando de 7,5%, em 97, e 8% em 98; a taxa de desemprego, de 10% a 12%, será a mais alta dos últimos anos. Isto para não falar sobre os indicadores sociais.
-Pois é, num ambiente desses, o papel do governo é fundamental para acenar com medidas que venham, se não reverter, pelo menos amenizar o quadro. No entanto, o que se sentiu na posse do presidente Fernando Henrique Cardoso, foi um discurso apenas apático. Não que devesse ter a grandiloquência que permeia as palavras solenes de sempre, nessas ocasiões. Mas, que tivesse pelo menos conteúdo mais otimista, que sugerisse disposição de lutar. FHC recusa o papel, reduzido, de ‘‘gerente de crises’’, como disse. Mas, mesmo como gerente, teria de ser mais enfático.
-Gerentes de crises são os empresários que há anos sobrevivem heroicamente com as taxas mais altas do mundo; são os produtores, exauridos pela carga tributária mais pesada do mundo, pela perversidade dos juros e pelas importações subsidiadas, além de encargos sociais; são gerentes também - e precisam ser competentes - os sindicatos, desafiados a mediar acordos peculiares. Mas, do presidente da República se espera muito mais do que o expresso na sua mensagem, destituída de entusiasmo. Sem firmeza, a idéia das reformas que estão em pauta - se é que estão - ficou como algo travestido de discurso apenas falacioso.
-Está certo que há uma crise mundial e que o dinheiro que gira pelo mundo nunca foi tão volátil, mas o Brasil se apresenta perigosamente vulnerável por uma série de razões sintetizadas realmente na má gerência. Do Banco Central, da Fazenda, etc.
-O ano da ‘‘transição’’ - como designa o megaespeculador George Soros - será pior do que se possa imaginar. Não é sincero, ou pelo menos não é totalmente verdadeiro, prever mudanças de tendências no segundo semestre. Para o segundo semestre está reservado o peso de toda a crise recessiva do baixo consumo, sobre o setor industrial.
-Para chegar ao final do ano a salvo, resta esperar um bom papel do FMI (que paradoxo!) no Brasil, depois da sua questionada atuação na Ásia e o quase fracasso, não assumido, na Rússia.


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