-A economia brasileira começou 98 como ‘‘bola da vez’’ - no contágio da crise mundial das bolsas - e terminou como a ‘‘última pedra do dominó’’, aquela que não podia tombar, segundo o FMI. Afinal, não interessava ao sistema monetário o naufrágio de mais uma economia regional, a América Latina, como acontecera, pouco antes, com a Rússia, enquanto os tigres asiáticos já estavam reduzidos a gatinhos em inanição. O empréstimo ao Brasil seria, portanto, uma questão convergente.
-Poeira assentada, a equipe econômica estufa o peito e brinda a passagem do ano com ar de presunçosa competência. Engano. Sobrevida não é resultado final. Do jeito que as contas públicas estão vulneráveis, o Real, infelizmente, não resiste ao menor ataque especulativo. Os catastrofistas de plantão não rogam, mas os indicadores sociais apontam. O nosso maior inimigo em 99 não serão as variáveis externas, criadas por barreiras protecionistas, tampouco o vírus do crash. Mas a nossa própria inapetência.
-Neste primeiro trimestre do ano, de tradicional recessão, os contornos da crise estarão bem desenhados. Mas o governo se mostra impotente para comandar as mudanças, enxugar gastos, ajustar câmbio, promover a reforma fiscal e tocar o projeto para recolocar o País nos trilhos.
-Hoje o real - de tantas glórias - sofre do mal que o economista norte-americano Paul Krugman chamaria de excesso de capacidade instalada (‘‘over hooted’’). Krugman ganhou manchete por prever a crise do modelo asiático. Ele não foi tão preciso na sua previsão, mas foi o único - enquanto o mundo inteiro se curvava ante aos tigres - a fazer restrições, numa delas, em 1997 - portanto bem antes da crise - resumia que o modelo asiático não conseguiria parar em pé. Não parou. Em julho último, em polêmica entrevista no Brasil, Paul disfarçou a falta de modéstia e ‘‘corrigiu’’ seu diagnóstico: ‘‘Disse apenas que os ‘‘tigres’’ não continuariam crescendo com projetos superestimados’’.
-Modéstia às favas, Krugman aproveitou a cena para explicar que a crise não estava confinada no Sudeste da Ásia. Dito e feito, em agosto o mercado acionário sacode o mundo com uma queda de 21% na Bolsa de NY.
-Pois é, o mesmo Paul Krugman andou fazendo ‘‘observações’’ à trajetória do Plano Real. E não foi recente, foi em outubro de 1997, quando o governo brasileiro, para contrapor à fuga de capitais dobrou a taxa básica de juros dos (já nada modestos) 20% para (generosos) 43% ao ano. Simultaneamente, lançou um meio-pacote fiscal que traria aumento de impostos e redução dos gastos. A redução dos gastos, como sempre, não se sabe em que setores ocorreu. Se é que ocorreu. Quanto aos juros, como instrumento monetário para redução de consumo e corrosão da poupança interna, funcionou até outubro, quando ocorreram as maiores saídas de dólar do País.
-Mas este remédio não funcionaria novamente.


Por quê?

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