-Se o governo já não estava mesmo propenso a dar o melhor destino à portentosa receita das vendas de estatais, agora é que as coisas se complicam. É que a crise financeira externa chega à receita das privatizações. Pelo menos é o que se conclui das informações de quem está no comando: o presidente da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Renato Guerreiro, disse ontem, em Washington, que a receita com a privatização, prevista para dezembro, dificilmente vai atingir os R$ 6,6 bilhões esperados pelo governo. Mesmo assim é um volume alto.
-Por ‘‘melhor destino’’ ao dinheiro das privatizações entendem-se: investimentos em obras de infra-estrutura, investimentos de ordem social e fomento à atividades produtivas, prioritariamente a agricultura, por ter um período de maturação e conversão mais curto.
-O governo, porém, nunca alimentou programas ou projetos regionais nessas linhas. Agora é que não vai mesmo. Depois de reduzir as reservas brasileiras, a crise que voltou a atingir os mercados emergentes começa a colocar em risco um dos últimos pilares de sustentação da economia brasileira: as receitas de privatização.
-Esse dinheiro está previsto como receita no Orçamento de 1999. Receitas de privatização estão sendo um dos maiores instrumentos do governo para
controlar o balanço de pagamentos. ‘‘O preço pode e deve cair em função da crise porque o dinheiro encarece’’, disse Guerreiro, que participou de um seminário em Washington sobre investimentos em infra-estrutura no Brasil. ‘‘Mas, com toda a honestidade, minha maior preocupação é manter a concorrência e não garantir a receita’’, disse, em entrevista a Marcio Aith, enviado especial da Agência Folha.
-Desde a crise russa, o custo de captação de empresas brasileiras por meio de emissão de títulos voltou aos níveis de 95, logo após a crise mexicana. Os grandes investidores em telecomunicações no Brasil precisam usar esse mecanismo para participar de privatizações.
-As dificuldades de captação previstas por Guerreiro foram confirmadas por um dos maiores investidores em infra-estrutura em mercados emergentes. Everett Santos, presidente do Emerging Markets Partnership (empresa conselheira do fundo de investimentos da General Electric), afirmou que a aquisição de fundos para a participação na privatização em dezembro está mais difícil. Ele participou do mesmo seminário. ‘‘Temos interesse nessa privatização, mas estamos notando dificuldades na obtenção de funding, financiamento’’. Segundo Santos, é muito provável que o preço das empresas-espelho seja menor que o esperado pelo governo.

Conselho

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