O empório da esquina sobrevive à concentração dos hipermercados e não vai sucumbir, ao contrário do que se previu menos de três anos atrás. Há dados que atestam essa tendência, agora que a incorporação de pequenas redes de varejo pelas grandes marcas de hipermercados parece ter cessado definitivamente.
Um estudo da empresa de Consultoria Nielsen para a Associação Brasileira de Atacadistas e Distribuidores (Abad), que será divulgado no próximo dia 23, aponta uma nova realidade no comércio de bens essenciais.
As vendas de alimentos e produtos de higiene caíram 1% nos hipermercados e cresceram na mesma proporção no pequeno varejo dos bairros, as chamadas lojas de vizinhança. Uma performance que pode até estimular investimentos no comércio tradicional.
Detalhes do novo estudo pouco se sabe, pois a Abad não quer divulgá-lo no momento. O mais importante - inclusive para os atacadistas e distribuidores - é que a tendência permanece em 2002, ou seja, o consumidor não vai tomar ônibus em frente ao mercadinho do bairro para fazer pequenas compras no centro.
Os atacadistas e distribuidores da Abad (100 mil postos de trabalho em cerca de 20 mil empresas filiadas) temiam perder espaço com a concentração dos negócios do varejo. A mesma ameaça pairava sobre a indústria. O varejo forte dá as cartas e engorda sua margem de lucro.
Neste aspecto, pelo menos um tipo de fornecedor não pode sentir-se aliviado: são os de hortifrutigranjeiros e, em segundo lugar, as agroindústrias. Juntos, são, definitivamente, o principal refém do grande varejo. Para eles sim a situação parece irreversível.
Não se pode negar, convenhamos, que o consumidor, indiretamente, é beneficiado. Por enquanto.
Não é difícil imaginar os motivos dessa reversão de tendência. Em primeiro lugar, há um deslocamento do consumo entre os consumidores das classes ‘‘C’’ e ‘‘D’’, que renunciam (são obrigados a renunciar!) das compras de bens duráveis, por força da queda do poder aquisitivo. Naturalmente direcionam suas modestas economias para alimentação ou produtos de higiene, do lar e de uso pessoal.
Outro motivo está relacionado com os preços. Justamente neste universo de itens, em que predominam os alimentos, os preços são mais baixos nos mercados dos bairros, exceção apenas das promoções nas grandes redes. Acompanhamentos de preços da cesta básica apontam esses dados com certa regularidade.
Mas há um indicador social pessimista nesta nova realidade do varejo (crescimento nas vendas das lojas da vizinhança e recuo nas vendas dos hipermercados - no mesmo universo de bens essenciais). É que a maior frequência das visitas do consumidor aos supermercados revela compras menores - literalmente ‘‘da mão para a boca’’, no exato calibre da sua economia embobrecida. Isto também expressa redução do consumo consequência de desemprego, subemprego, enfim um arrocho escamoteado pelos índices aferidores da inflação.

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