OSWALDO PETRIN - O sonho acabou
A imagem crepuscular do desgastado Plano Real está sintetizada em dois fatos que ocorrem exatamente no dia em que completa oito anos: 1) aumento dos combustíveis, que sempre coloca em dúvida a consistência do plano, 2) a projeção média de 5,53% para a inflação de 2002, está acima da meta fixada no início do ano e também do teto fixado pelo governo, de 5,5%. O próprio Banco Central e setores privados já começam a revisar (para cima) as previsões do IPCA e outros indicadores de preços.
O Real encantou os brasileiros no início, oito anos atrás, porque conseguiu controlar a inflação. Afinal, o povo não suportava a inflação e todas suas consequências, incluindo a ciranda financeira que inibia investimentos produtivos. E a paridade do câmbio - que não parecia ilusória - chegava ao ufanismo.
Mesmo sacrificando alguns segmentos, o plano foi bem aceito durante uns quatro anos, até que a população descobriu que o preço do controle da inflação era alto demais. E que a decantada estabilidade já não vinha sendo mantida por mérito dos gestores da política do governo e sim pelo sacrifício de segmentos da economia.
No primeiro momento - a fase da ''âncora verde'' -, o governo quebrou a agricultura que bancou o plano sozinha. Depois, com a economia ainda engessada, a atividade produtiva (aquela que ganhara fôlego com o fim da especulação financeira) perdeu sua força de consumo. O Plano Real passou a segurar as taxas de inflação pelo controle da demanda, via taxas de juros, entre outros instrumento de política monetária.
Sem crédito e sem salário, o consumidor não consome e os preços não têm ambiente para subir - segundo o raciocínio simplista do modelo. Mas subiram, segundo o raciocínio sábio da lei da oferta e procura, apesar da pouca oferta e de muito pouca procura.
Ao final de dois mandatos a equipe econômica não descobriu que a estabilidade está sendo mantida pelo estômago de desempregados, subempregados e uma economia que sobrevive no subterrâneo da informalidade.
Essa constatação, aleatória, é para não recorrer a dados que estão aí, em profusão: crescimento democrático versus crescimento do PIB; taxas de desemprego versus aumento da oferta de trabalho. Milhares de graduados que (não) entram diariamente no mercado de trabalho.
Se isso vai transparecer nas eleições, não cabe analisar. Interessa analisar que o crescimento não é suficiente para a criação dos postos de trabalho compatíveis com a evolução da população economicamente ativa. Uma economia que precisa criar 1,5 milhão de novos postos de trabalho/ano não pode aumentar a taxa de desemprego.
Enfim, os indicadores sociais botam medo.





