Os riscos da inadimplência
PUBLICAÇÃO
domingo, 08 de junho de 1997
Francisco Antônio Feijó 
Inadimplente é o devedor que não cumpre no prazo determinado as suas obrigações. As pesquisas anunciam que houve um crescimento de 65% no volume de inadimplentes em relação ao mês de março de 96. Seriam esses números significativos, no contexto da atual situação econômica do País, em que lidamos com uma moeda estável e, uma inflação tecnicamente zero? Essa é a pergunta que nos fazemos, lendo e ouvindo estatísticas apresentadas por técnicos da área.
Em nosso entender, o problema está diretamente ligado a dois fatores. O primeiro, a perda de emprego, com as consequências normais disso resultantes e o segundo, pela mania de comprar, mesmo que em 50 ou mais parcelas.
O fabricante quer vender, as lojas são obrigadas a comprar, o consumidor deveria comprar somente o estritamente necessário ou se possível, somente comprar se efetivamente tivesse recursos para isso, não contar com o dia de amanhã.
Isso não acontece. Promoções, ofertas mirabolantes, preços à vista que se transformam em algumas vezes mais a prazo e lá vai o consumidor, entrando em dívidas. Compra com carnê, com cartão de crédito, com cheque pré-datado, enfim, é a folia da compra, e o que é mais interessante, quem mais compra são exatamente aqueles que têm menos condições de fazê-lo.
Resultado: qualquer percalço no caminho, e lá vai o inadimplente para o SPC, tendo sua ficha suja, ou enfrentando uma ação judicial para a retomada do objeto adquirido e não pago, ou siplesmente vendo os cheques pré-datados que se tornaram títulos de crédito, serem protestados ou executados.
O governo não tem nada com isso. Não foi ele que me obrigou a comprar, pelo contrário, avisou logo no começo do plano que deveria haver uma moderação nos gastos, sem o que, poderíamos ter um reverso do problema, com sensíveis e maiores prejuízos para a nossa economia.
Se não estamos tendo aumentos salariais preferindo as entidades sindicais discutir e manter outras vantagens, entre elas o próprio emprego, não há como se pensar que se possa continuar comprando desbragadamente, como se estivéssemos pretendendo estocar, como ocorria em planos econômicos anteriores.
Não vamos também lançar toda a culpa em cima do inadimplente, se realmente ele tiver uma razão lógica para ter entrado nesse esquema. Entretanto, para aqueles que simplesmente compram, muito e muito acima de suas possibilidade, só resta uma solução: renegociar as dívidas. E os credotes estão geralmente concordando com as propostas, não obstante pagando o devedor juros de juros, ou devolver as coisas compradas que são geralmente bens duráveis e tirar da frente o fantasma da quebra de crédito.
Quando se oferece, tudo é bonito, fácil de pagar. Depois de comprado, os defeitos surgem e a dívida aumenta, na razão direta do prazo que, geralmente é grande, pela pequena ou nenhuma sobra no orçamento mensal dos adquirentes.
Por essa razão, os riscos da inadimplência são grandes, podem se transformar em uma reação em cadeia, e aí sim, estaremos derrubando toda a estrutura do atual plano econômico que, insistimos, baseia-se na redução dos gastos em bens de consumo e duráveis.


