Os pecados do capitalismo
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de outubro de 2001
Lester Thurow 
O mundo é marcado pela dualidade. As relações sociais, econômicas e políticas refletem essa realidade, da qual é impossível fugir. O capitalismo, por exemplo, é o único sistema que criou crescimento econômico e possibilitou a satisfação das necessidades individuais do ser humano, mas nem por isso podemos considerá-lo perfeito. Ao contrário. Os dois aspectos mais perversos que ele impõe são a recessão e a quebra financeira.
Infelizmente, essas características são inerentes ao sistema. Sempre o acompanharam e sempre existirão, independentemente de a nova ordem econômica ser mais ampla do que há alguns séculos. Mas ao contrário do que muitos pensam, a globalização não provoca a desvalorização das ações nos mercados mundiais, simplesmente altera a dinâmica das oscilações.
Podemos listar vários exemplos de altos e baixos do capitalismo. A grande crise de 1929, que desestruturou a economia norte-americana por vários anos; o fim da bolha especulativa na década de 1990, situação até hoje irreversível; ou a crise das bolsas asiáticas, cujos efeitos foram sentidos em várias partes do mundo, especialmente nos países em desenvolvimento. Em todos esses episódios há uma consequência comum e perigosa: os preços ficam vulneráveis.
Situações como essas explicitam outra realidade. As crises subvertem a lógica do valor das coisas, não importa se esses ''preços'' sejam referentes a produtos, serviços ou ações em bolsa. A queda de preço assusta porque coloca em evidência o fantasma da deflação, ou seja, o que hoje custa 10, por exemplo, amanhã pode cair para oito.
Para os investidores, esse é um grande desafio: ter feeling para se manter no mercado enquanto ele é promissor e usar a mesma sensibilidade para pular fora antes que seja tarde demais. Infelizmente, não há fórmula infalível. As bolhas econômicas, não importa a época, só ficam visíveis quando elas, efetivamente, desaparecem.
Diariamente, o mercado financeiro mundial movimenta US$ 15 bilhões. Em situações atípicas, essa quantia pode chegar a US$ 3 trilhões. Para se ter idéia de quanto esse capital representa, basta compararmos com as reservas internas do Japão, estimadas em US$ 200 bilhões. Ou seja: se o mercado internacional entrasse em colapso, nem a terra do sol nascente resistiria a umas poucas horas de ataque especulativo concentrado.
A imprevisibilidade faz com que a economia se assemelhe à geologia. Podemos monitorar as variáveis fundamentais e pressões normais, mas é impossível prever o momento. Nunca, em país ou época alguma, se criou um modelo econômico com regras válidas para as circunstâncias inesperadas ou aleatórias. O mesmo ocorre com os vulcões.
Em meados da década de 90, muitos gurus previram que a economia mundial passaria por grande desarranjo. Em meu livro O futuro do Capitalismo, de 1996, eu mesmo realizei esse prognóstico. Contudo, não há mérito nessa profecia. Para um analista, um verdadeiro feito seria poder datar esse momento. O jogo do mundo dos negócios funciona assim. Os investidores ganham dinheiro no momento preciso, nem sempre conhecendo as variáveis fundamentais que estão atuando.
Após a crise do sudeste asiático, o primeiro ministro da Malásia culpou os especuladores internacionais pela situação em seu país, o que não é verdade. Todos nós sabemos que os principais envolvidos com os negócios são os primeiros a pressentir um problema. Suponhamos que eu seja um empresário indonésio e tenha dívidas em dólares. A primeira coisa que farei é monitorar o câmbio atentamente. Ao primeiro sinal de desvalorização, serei o primeiro a sair do jogo.
Os empresários locais desencadeiam as crises e os mercados internacionais, posteriormente, comem uns aos outros. Neste caso, não adianta intervenção estatal. O sistema capitalista é uma selva, onde todos os seus habitantes tentam sobreviver.
A moral da história é que todos os países ou blocos econômicos estão vulneráveis à gangorra da bolsa. O segredo, contudo, não está em contê-la, mas em consertar o desastre depois do turbilhão econômico.
Uma análise sobre o mercado norte-americano nas década de 70 e 80 oferece algumas pistas. Nesse período, as seis maiores empresas quebraram, incluindo a Chrysler, e metade dos bancos faliram em função da queda da bolsa. Em consequencia, a cidade de Nova York ficou arruinada. Em 97, o país viveu nova queda de ações - a bolsa perdeu mais de 25% de seu valor e os preços no mercado imobiliário baixaram 50%, especialmente nas áreas metropolitanas. Apesar disso, não houve nenhuma consequência na taxa de crescimento econômico dos Estados Unidos.
Em 1990, além do Japão, houve outro país que viu sua bolsa despencar: Taiwan. No geral, suas ações caíram de 12 mil a 3 mil, mas, novamente, essa situação não teve impacto sobre o desempenho econômico.
Nos últimos anos, muitos investidores norte-americanos perderam o sono em decorrência das oscilações na Coréia, Tailândia e Rússia. Mas, para os EUA, não são esses países que podem desencadear grande crise mundial. O calcanhar de Aquiles é o Japão, país cuja economia é cinco vezes maior que todo o resto da Ásia e que detém um Produto Nacional Bruto (PNB) que representa 17% da riqueza mundial.
Essa afirmação é desconcertante. Muitos, certamente, estarão se perguntando: o que justificou a grande preocupação mundial com a crise asiática de 1998 se os Tigres Asiáticos compravam apenas o equivalente a 2% do PBN norte-americano?
A resposta, neste caso, não é simples. O que estava em jogo não eram as exportações dos Estados Unidos para a Ásia, mas o efeito que uma crise com esse perfil poderia causar aos preços. Chegamos novamente à questão dos preços.
Essa consequência explica porque os mercados de ações ainda se assustam diante da realidade japonesa, ou seja: no caso de drástica desvalorização do iene frente ao dólar, nenhuma empresa dos EUA ou da Europa seria suficientemente competitiva - os japoneses poderiam fixar preços que tornariam os concorrentes internacionais não lucrativos. Para o crescimento econômico, essa situação é um desastre.
Nos Estados Unidos, quando as ações caem, os cidadãos, importantes investidores individuais, se sentem mais pobres e, quando isso ocorre, a consequência imediata é a retração no consumo. Não podemos nos esquecer que a economia norte-americana é movida a consumo. Não é à toa que todos os bens, de carros a imóveis, são financiados a longo prazo e com taxas de juros extremamente atraentes.
Já para México, Brasil e Argentina os tigres asiáticos foram grandes ameaças. Como as empresas desse bloco produzem produtos similares aos confeccionados pelas nações latino-americanas em desenvolvimento, os preços, internacionalmente, mudam de parâmetro. Ou seja: não há companhia brasileira, mexicana ou argentina em condições de competitividade internacional.
- Lester Thurow é economista e professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT)


