Os dividendos da 'República de Curitiba'
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sexta-feira, 09 de junho de 2017
Magaléa Mazziotti<br>Reportagem Local 

Controverso até mesmo sob a ótica do retorno financeiro para a cidade, o recente título atribuído à capital paranaense por conta da Operação Lava Jato "República de Curitiba" acarreta ônus e bônus sob o ponto de vista da atração de turistas. Profissionais do setor de turismo, hotelaria, administração e marketing reconhecem um incremento significativo na visibilidade do endereço postal da vara de atuação do juiz federal Sérgio Moro, responsável pelos processos da operação na primeira instância.
De resto, as percepções sobre a geração de valor e renda desse mote são distintas e difíceis de serem mensuradas, uma vez que a operação teve início no mesmo ano em que Curitiba sediou alguns jogos da Copa do Mundo no Brasil, em 2014, evento que também acarreta em aumento de visitações.
O presidente da Curitiba Região e Litoral Convention & Visitors Bureau (CCVB) e diretor da BWT Operadora, Adonai Aires Arruda Filho, avalia positivamente o "República de Curitiba". "Ao contrário da Copa, esse título trouxe uma resposta mais imediata à cidade, já que garantiu visibilidade ao mesmo tempo em que reacendeu aos olhos de quem mora fora qualidades que há décadas são características curitibanas como a limpeza das ruas e a fama de que tudo funciona. Na comparação com boa parte das capitais, Curitiba realmente se destaca nestes aspectos", argumenta.
O presidente e empresário comenta que do dia a dia dele à frente da BWT Operadora, a taxa de crescimento dos últimos anos se manteve em 10%, mas aumentou o interesse pela cidade. "Entra no intangível, em valores que a sociedade está buscando como o combate à corrupção. De forma prática, desperta a curiosidade e o apreço das pessoas. Não são raras as vezes que me perguntam se conheço o juiz Sérgio Moro, ou que vejo um visitante trazer a esposa em uma viagem de negócios por conta do interesse em conhecer a 'República'", atesta o presidente do CCVB, que conheceu o juiz por ocasião de uma homenagem (Cavalheiros da Boca Maldita) recebida por ambos.
Tour Lava Jato
Em relação à evolução da taxa de ocupação em hotéis da cidade desde 2014, segundo o Instituto Municipal de Turismo de Curitiba, não é possível precisar uma evolução por conta da Operação Lava Jato, em função da Copa e porque o acompanhamento mensal deixou de ser feito nos últimos anos. Contudo, a empresa especializada em turismo receptivo, a Special Paraná, que há dez anos promove passeios em Curitiba e região, desde março de 2016 incluiu nas opções de city tour privativos o chamado Tour Lava Jato.
Com quase quatro horas de duração, o tour inclui a Procuradoria da República (local da força-tarefa de procuradores que montam os processos); caminhada para a Praça Santos Andrade, onde está o prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (onde o juiz Sergio Moro lecionou e onde o atual relator da Lava Jato, ministro Edson Fachin, se graduou e lecionou); o prédio da Justiça Federal (sede da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba é especializada em crimes financeiros e de lavagem de ativos e onde trabalha o juiz Sergio Moro); a Superintendência da Polícia Federal (sede da investigação e local de carceragem provisória) e o Complexo Médico-Penal (local onde os investigados e os julgados no processo ficam presos).
O custo varia de R$ 195,00 por pessoa (para grupos com 10) até R$ 375,00 se for apenas um visitante acompanhado do guia. Quem se interessar por arte tem a opção de estender o passeio no Museu Oscar Niemeyer e conhecer o acervo do museu por conta própria. Entre as obras expostas estão algumas apreendidas durante a Lava-Jato. A exposição "Sob a Guarda do MON" tem 26 obras de um total de 600 que foram recuperadas. Entre as obras expostas estão um quadro do pintor espanhol Miró e um do consagrado artista brasileiro Vik Muniz. Segundo a Special Paraná, o passeio surgiu da demanda de integrantes de outros tours e, por mês, pelo menos um Tour Lava-Jato é realizado. Pelo site www.curitiba-travel.com.br ou telefone (41) 3232-1314 é possível agendar esse e outros passeios.
Oportunismo pode virar prejuízo
A doutora em Marketing, diretora da agência de comunicação e branding Ponto Design e professora de Marketing e Comunicação da Fae Business School, Patricia Piana Presas, alerta sobre os riscos do comércio curitibano tentar capitalizar em cima da fama da Lava Jato. "Há de se levar em consideração o custo de refazer todo o layout, do cardápio à placa de um estabelecimento que, porventura, busque capitalizar em cima de qualquer mote que ficará datado", avalia. A doutora em Marketing vê com ressalvas o fato de a cidade ou um estabelecimento atrelar a imagem a algo que pode mudar de valor para a sociedade. "Assim como um garoto-propaganda que corre o risco de ter algum problema na vida pessoal que afete a sua imagem e dos produtos que representa. Um mote associado a algo passível de interpretações e desdobramentos imprevisíveis é extremamente frágil. O aspecto positivo que parte da população hoje atribui à República pode virar negativo mais adiante. Eu jamais indicaria a qualquer cliente", afirma, categoricamente.
Na visão do administrador da casa noturna Aos Democratas da República de Curityba, Marlus Mercurio, a decisão de adotar este nome levou em conta o "peso da tradição". "Sou bairrista e sempre tive muito orgulho da cidade e isso não passa com o tempo", defende. Ele comenta que o nome gerou alguns comentários na rede social, mas acredita que o movimento não sofreu qualquer influência. "É uma brincadeira que quem é da cidade entende independentemente da posição política, pois todo mundo quer se divertir", acredita Mercurio. O local foi inaugurado em janeiro deste ano e, desde então, atende de 7 mil a 10 mil pessoas por mês. (M.M.)


