Os argentinólogos
Talebanólogos americanos e argentinólogos brasileiros têm algo em comum: ambos os grupos responsabilizam a globalização e o neoliberalismo pelos atentados terroristas de Nova York e pelos descalabros econômicos, sociais e políticos de Buenos Aires.
Fiquemos na derrocada platina. Botar a culpa no alheio é algo mais que uma absolvição escapista. É refertilizar o jogo do moral hazard que sustenta governos que não governam porque não se governam nem se deixam governar. Pois, em matéria de populismo rastaquera, o peronismo insepulto continua sem rival no mundo.
Ou será culpa do tal de neoliberalismo a velha blindagem política da gastança pública rosca sem-fim? Um Estado argentino inchado e parasita é obra de meio século de desgovernança nacional, com direito a golpes militares intermitentes. A privatização de estatais falidas não se fez acompanhar do descarte de um único dos 23 dos bancos estaduais (provinciais), tecnicamente lenientes e politicamente permissivos.
Bem ao contrário. Tal como se deu aqui no Brasil roto, na Argentina rasgada os bancos estatais das Províncias financiaram déficits a fundo perdido do setor público e créditos sem retorno para apaniguados dos governantes da vez. Nos últimos dois anos de sufoco terminal, as províncias deram-se ao luxo de funcionar como casa da moeda em causa própria.
Nada menos de 14 governos provinciais emitiram não-moeda com função de moeda (patacones de livre curso) sob o tampão do falecido regime de currency board. Regime leonino, arremedo contábil do antigo padrão-ouro, ele vetava a emissão de novos pesos sem o lastro de novos dólares nas reservas internacionais do país.
Desde quando o colapso argentino pode ser atribuído às sanhas e às manhas do ultraneoliberalismo? Ou por outra: desde quando congelar câmbio (preço relativo de todos os preços do universo econômico), por toda uma década, é rezar pelo catecismo do livre mercado?
Delatores e detratores do fantasioso ultraneoliberalismo do vizinho encalacrado, das duas, uma: a) ou entendem de Argentina tanto quanto entendem de Usbequistão; b) ou não têm noção do que seja ultra, do que seja neo e do que seja liberalismo.
No mais, já que somos todos argentinólogos, penso que organizar um país ainda não organizado, como o Brasil, é tarefa política abrasiva e desgastante. Agora, desorganizar um país já organizado, como a Argentina, é façanha política absurda e sinistra.
Secos & Molhados
Meio milênio
- O Brasil já consumiu 501 anos e 9 meses sem alcançar o juízo. Ou como escreveu Nelson Rodrigues, em 1963: O subdesenvolvimento não se improvisa. É obra de séculos. Ou no lembrete posterior de Darcy Ribeiro: O subdesenvolvimento brasileiro não é um destino. É uma doença. E, aliás, tem cura.
Desperdício
- Brasil em meio milênio e Argentina em meio século são ícones hoje do desperdício universal. Aqui, fomos dopados pela cultura da abundância, irmã siamesa da cultura da ineficiência, da acomodação e da tolerância. Responsável pelo nosso atávico desperdício de terra, de água, de mata, de energia, de sossego e de gente.
Até quando?
- A verdade é que o Brasil teima em não fazer 70% do que deveria ser feito. E não consegue fazer nem 50% do que já poderia ter feito. O tal de neoliberalismo nada teve a ver com isso.





