ONU aconselha moratória temporária para o Brasil
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terça-feira, 15 de setembro de 1998
Agência Folha 
O relatório sobre comércio e desenvolvimento de 1998 da Unctad (Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento), órgão da ONU, propõe a moratória temporária como saída para os países em desenvolvimento cujas moedas estejam sob ataque especulativo. Durante a apresentação do documento, no Rio, o economista norte-americano Jan Kregel, da Universidade de Bolonha (Itália) e consultor da Unctad, disse que o Brasil acabará tendo que recorrer à moratória ou à desvalorização do câmbio para enfrentar os ataques. Para ele, o Brasil não é diferente da Ásia em termos de risco.
O documento da Unctad propõe um novo modelo de desenvolvimento econômico internacional, com mecanismos de controle dos capitais de curto prazo. Kregel disse que é previsível uma nova rodada de regulação dos fluxos financeiros internacionais. Diante da gravidade da crise, ele propõe uma conferência internacional para reorganizar a economia mundial, semelhante à de Breton Woods (EUA) depois da 2ª Guerra Mundial. Kregel considera que os modelos de desenvolvimento com base na atração de capitais externos, via juros elevados, para dar sustentação à moeda do País (âncora cambial) carregam o germe da própria destruição, na forma de deterioração das contas externas e do déficit interno do governo.
A Unctad, com sede em Genebra (Suíça), tem como secretário-geral o brasileiro Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda. Mesmo com propostas contrárias à linha que vem sendo posta em prática pelo Brasil, o relatório foi divulgado na sede do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), um dos principais órgãos econômicos do governo brasileiro.
Segundo o documento da Unctad, a possibilidade do uso da moratória por países sob ataque especulativo seria uma correspondente no campo financeiro às normas da OMC (Organização Mundial do Comércio) que permitem o uso de salvaguardas na área comercial. A Unctad afirma que o uso da moratória está respaldado no artigo 8º do documento de constituição do FMI (Fundo Monetário Internacional). Também o artigo 6º é citado como um instrumento que respaldaria o controle dos fluxos de capitais internacionais. A moratória pode ser unilateral, como a russa, seguida da rápida renegociação.
O órgão da ONU para comércio e desenvolvimento considera que o mundo está à beira de uma recessão de grandes proporções. Somente com a crise asiática o documento calcula que as perdas acumularam em um ano US$ 260 bilhões, quase um terço do PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro e cerca de 1% da produção mundial. Para a Unctad, a crise é sistêmica e se desdobra desde a crise financeira da América Latina do final dos anos 70, passando pela crise da Bolsa de Nova York de 1987, pela crise das moedas européias de 1992 e pela crise mexicana de 1994. Na raiz do problema estão os fluxos de capitais de curto prazo, que geram sobrevalorização da moeda do País e de bens como imóveis e ações.


