Clóvis Rossi
Agência Folha
O espírito contestatório que inundou as ruas de Seattle contaminou ontem a 3.a Conferência Ministerial da OMC (Organização Mundial do Comércio), ameaçando ainda mais a convocação da Rodada do Milênio, o novo e abrangente ciclo de negociações comerciais.
Durante plenária dos chefes de delegação, o representante de Hong Kong
cobrou da presidente (a anfitriã norte-americana, Charlene Barshefsky) o fato de que até agora nenhum documento sobre vinculação entre comércio e padrões trabalhistas havia sido discutido.
Trata-se da proposta mais cara aos norte-americanos, mas fortemente
rejeitada por numerosos países em desenvolvimento, Brasil incluído. ‘‘Não vamos aceitar que, na undécima hora, nos apresentem um fato consumado a
esse respeito , disse o ministro asiático.
Um coro de aplausos partiu das bancadas, apoiado por batidas de mão nas
mesas, como se fosse ‘‘uma assembléia estudantil, na comparação ouvida
pela reportagem de um diplomata. ‘‘Em 40 anos de experiência em reuniões
internacionais, nunca vi uma coisa dessas, reclamava. A reação de Hong Kong confirma o que a reportagem já havia antecipado ontem: a entrevista em que o presidente Bill Clinton defendeu a introdução, em acordos comerciais, de sanções a países que não respeitem direitos trabalhistas fundamentais transformou-se num foco de desacordo que ameaça o sucesso da Conferência de Seattle.
Posição brasileira ‘‘As declarações de Clinton provocaram um enrijecimento das posições, admitia o chanceler brasileiro, Luiz Felipe Lampreia. Ele próprio aumentou um decibel a sua crítica à vinculação entre padrões trabalhistas e comércio, ao dizer que se trata de ‘‘introduzir o ovo da serpente na OMC .
A posição brasileira ganhou o surpreendente apoio do PT, em carta que a
direção do partido enviou a Lampreia. O que contraria a posição da CUT, a central sindical ligada ao partido, que é a favor do vínculo
comércio/padrões trabalhistas.
Lampreia explica que o Brasil não se opõe à discussão do tema, mas afirma que ‘‘a OMC não é um clube de debates, mas uma organização que determina regras e pune quem não cumpre’’.

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