Olhos de raio-x para julgar bois
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Nelson Bortolin <br>Reportagem Local 
Chifres em formato de lira, orelhas largas, olhos bem desenhados e narinas pretas. Essas são apenas algumas entre tantas características que apontam a pureza da raça guzerá. Quanto mais fiel a esses traços genéticos, mais chances tem o boi de se tornar um campeão nos julgamentos realizados nas feiras agropecuárias. As cores do couro e da pelagem, o formato dos cascos e o tamanho dos testículos também são muito importantes.
Com 25 anos de experiência, o juiz David de Castro Borges, da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ), julgou no último domingo, na Expo Londrina 2011, cerca de 20 bovinos da raça em categorias divididas por faixa etária. Em grupos de 3 ou 4, os animais eram levados à pista, onde Borges e seu auxiliar analisavam detidamente um por um.
''Veja que todo zebuíno tem bastante barbela. Ao contrário dos taurinos, eles têm glândulas de suor e a maioria delas fica na barbela'', ensina o juiz, diferenciando a espécie que veio da Índia da Europeia. ''O zebuíno tem sempre cupim, que tem forma parecida com castanha de caju. Se não tiver o cupim bem definido nem adianta mandar o animal para julgamento'', sentencia.
Para quem não é do ramo, um animal é muito parecido com o outro. Mas entre tantos que entravam e saiam da arena, o juiz reconheceu um que havia julgado anteriormente em Avaré (SP). Ele perguntou para o peão que confirmou tratar-se do mesmo animal. ''Para a gente que lida com isso, os bois são muito diferentes entre si'', afirma.
Depois de examinar detidamente aspectos raciais, sexuais e de postura, e de discutir com seu auxiliar, o juiz dá o veredicto entre dois touros. Ao microfone, ele explica por que deu a segunda colocação a um dos animais. ''Eu gostaria que ele tivesse mais musculatura. O esqueleto é bom, o espaçamento entre as costelas também. Racialmente ele bom, mas um campeão tem de ter um aprumo melhor'', justifica o juiz.
O dono do animal campeão, talvez acostumado às glórias do bicho, nem apareceu na Rural. Mas o proprietário do vice estava lá torcendo pelo seu touro. ''Quando o julgamento é honesto e você percebe que tem animal melhor que o seu, você tem de reconhecer'', conformou-se o pecuarista Luiz Roberto Trovati. Ele está no mercado de P.O. há apenas quatro anos e diz que, apesar das despesas com julgamento, o retorno compensa. ''É caro, mas cada vez que um boi é campeção ele ganha mais valor no mercado e o resto do rebanho também.''
O diretor de Pecuária de Corte da Sociedade Rural do Paraná (SRP), Célio Arantes Heim, explica que, quando se destacam nas pistas, os animais têm mais chances de ir a leilão e de ser contratados para uma central de semên. ''O retorno nem sempre é imediato, mas a cada julgamento as informações são colocadas num banco de dados nacional.''
Veterinário e também juiz, ele afirma que, em algumas feiras, existem equipamentos para ajudar no julgamento. Mas que, na maioria das vezes, as únicas ferramentas são os olhos e a experiência do profissional. Questionado se não se trata de uma forma muito subjetiva de avaliar o animal, ele nega. ''O olho do juiz é capaz de medir com segurança, verificar se o animal está dentro do padrão da raça'', afirma.


