Oito lições e quatro dicas para comemorar o Plano Real
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de junho de 1997
Jacob Hartmann 
O Plano Real daqui a poucos dias completa três anos. É verdade que ele começou bem antes de julho, em março de 94, quando o governo criou a URV e definiu as regras que entrariam em vigor três meses depois. Estes três anos nos ensinaram várias coisas. A primeira: três anos demoram a passar.
O Real, que nos faz conviver com uma inflação baixa e uma economia estável, tem colocado empresas e pessoas diante de situações difíceis para um povo, culturalmente acostumado com a inflação, e por isto estes 1.095 dias dão a impressão de serem mais compridos. Sem poder ter outra renda a não ser do trabalho (no caso das pessoas) e da venda e/ou serviços (no caso das empresas), pois o ganho financeiro praticamente acabou, muitos chegam a este aniversário no sufoco, recorrendo aos limites dos cheques especiais. Entretanto, a mudança foi para melhor e algumas observações podem ser feitas das principais alterações ocorridas neste período.
1. A inflação atualmente baixa, provavelmente de um dígito neste ano, não mais mascara ou dificulta a visualização dos desperdícios e improdutividade dentro das operações das empresas;
2. A pressão dos competidores do mercado externo se manifesta através da presença de produtos e serviços aqui colocados via importação ou produção local. Com prática de preços mais baixos e melhor padrão de qualidade que os equivalentes nacionais, estas empresas vêm abocanhando boas fatias do mercado brasileiro;
3. Os competidores internos que se prepararam nos últimos cinco a dez anos têm atendido o consumidor adequadamente e fazendo poeira àqueles que não se prepararam;
4. O aporte de dinheiro e de tecnologia de processo e de produtos através da associação de tradicionais empresas brasileiras com gigantes conglomerados internacionais. Provavelmente o maior exemplo, neste caso, sejam as associações ou acordos das empresas das linhas brancas e marrom;
5. O efetivo funcionamento do Mercosul, fazendo com que os produtos destes países cheguem muitas vezes nas casas dos consumidores a preços mais baixos que seus equivalentes locais;
6. A redução, nos últimos doze meses, das taxas de juros e a dilatação dos prazos de financiamentos para a compra de produtos e de algumas vezes, de serviços;
7. A alteração de práticas de marketing e de distribuição tornando os produtos de acesso mais fácil e rápido aos consumidores (lojas de conveniência, displays, etc);
8. A estabilidade do Real permite a comparação dos preços e o fácil estabelecimento mental da relatividade dos preços aos que decidem as compras dos produtos.
Estes oito pontos direcionam a um novo cenário, onde empresas que desejam continuar no jogo da competição precisam tomar um conjunto de providências operacionais e, algumas vezes, de redirecionamento estratégicos. Assim, a partida segue, ainda que com faltas, retrancas e momentos de dificuldades, se:
1. As áreas de resultados das empresas (vendas, operações, compras e finanças) elaborarem planos de metas com definição de objetivos claros, desafiadores, mensuráveis e exequíveis pelas empresas;
2. As áreas de apoio (informática, recursos humanos, engenharia, manutenção, etc) revejam sua razão de ser nas organizações e procurem atender de forma mais atuante e objetiva os seus clientes internos;
3. As diretorias de áreas neste novo estágio e patamar de competição, rediscutam e reavaliem com mais frequência (no mínimo trimestralmente) o plano estratégico das empresas e,
4. Seus clientes e acionistas, as duas entidades mais importantes de qualquer empresa não estiverem plenamente atendidos, preocupe-se, porque sua empresa está correndo risco de vida.
Então, para chegar ao final do jogo e, se classificar para o próximo, não é suficiente apenas cuidar de aspectos isolados nas organizações (produtos, vendas, custos, etc) e sim ficar atento a todas as variáveis internas da empresa, sem se descuidar das relações e interdependência com o ambiente que a circunda (fornecedores, clientes, bancos e outros) e no macro-ambiente (legislação e mercado internacional, por exemplo). Ao se preocupar com isto, é bem provável que nos próximos aniversários do Real sua empresa seja a primeira a comemorar.
- JACOB HARTMANN é consultor de empresas, sócio-diretor da Wurttemberg Consultoria de Curitiba.


