Depois de um período prolongado de intensas chuvas, que transformaram o trigo que seria para o consumo humano em ração para os animais (triguilho), os agricultores do Oeste paranaense voltam-se agora ao plantio da safra de verão, destinando mais espaço para o milho e menos para a soja, em relação ao ano passado. A avaliação de técnicos das cooperativas da região é de que a área do milho deveria ser ainda maior, inclusive por causa da necessidade de rotação de culturas.
No âmbito dos municípios da área de atuação da Cooperativa Agropecuária de Cascavel (Coopavel) - 3,7 mil associados -, a soja deve ocupar 75,2 mil alqueires, com uma redução pouco significativa e considerada ‘‘normal’’ pelas condições do mercado. O milho deve ser plantado em 20 mil alqueires, 5% a mais que na safra passada. Segundo o presidente da Coopavel, Dilvo Grolli, a expectativa era de que os produtores plantassem mais ‘‘em vista da necessidade de rotação de culturas’’.
Grolli diz que a rotação, necessária para que se mantenha a qualidade e produtividade das safras, ficou comprometida nos últimos dois anos em função da remuneração satisfatória da soja. Além desta situação, a Coopavel está constatando outra, preocupante, relacionada ao algodão: os associados praticamente abandonaram a cultura.
Os motivos para o desinteresse são a ‘‘inviabilidade econômica’’ da cultura, resultante da ‘‘política desmotivante’’ praticada pelo governo federal, ‘‘e, concretamente, porque ao final das contas o produtor confere que não lhe resta nenhum saldo’’, afirma Grolli. Em compensação, os associados investiram mais no feijão, motivados pelo mercado favorável - a cultura, cujo plantio foi completado em agosto, já sofre alguns danos resultantes do excesso de chuvas.
A safra de verão sofre reflexos das perdas na safra de trigo, segundo o presidente da Coopavel, porque os produtores ficaram descapitalizados, e em investem menos em tecnologia. A estimativa é de que, nos 54,8 mil hectares ocupados com trigo na área da cooperativa, em 90% tenham ocorrido perdas, em termos de produtividade e qualidade. Antes, a expectativa era de uma produção de 2,2 milhões de sacas, com produtividade de 40 sacas por hectare.
Na região da Cooperativa Agrícola Consolata (Copacol), de Cafelândia, com 5 mil associados, a soja perderá espaço de pelo menos mil hectares, em relação aos 76 mil hectares de plantio na safra anterior. O milho avançará 20%, e o algodão permanece nos mesmos 4 mil hectares. Segundo o agrônomo Rubem Salles dos Santos, gerente da Divisão de Produção Agrícola da Copacol, as perdas com trigo chegam a 70%, nos 46 mil hectares plantados.
Na região do Extremo-Oeste do Estado, onde atua a Cooperativa Agropecuária Três Fronteiras (Cotrefal), com sede em Medianeira e 4,4 mil associados, a soja ocupará 5 mil hectares a menos em relação aos 170 mil hectares da última safra, e o milho passará de 9 mil para 12 mil hectares. O algodão será cultivado em cerca de 250 hectares, contra os 1,8 mil hectares do ano anterior.
Em relação ao trigo, o agrônomo Vitor Hugo Zanella, gerente da Divisão Técnica da Cotrefal, relata que os cooperados acumulam um prejuízo de R$ 3,6 milhões, com a frustração provocada pelo excesso de chuvas - em dois meses, na reta final da safra, foram 700 milímetros de precipitações. A cooperativa esperava receber 500 mil sacas de trigo, mas foram apenas 120 mil com pH 73, e 80 mil de triguilho. O resto ficou no campo, apodrecido, servindo como cobertura para o plantio direto.
Na microrregião de Marechal Cândido Rondon, onde atua a Cooperativa Agrícola Mista Rondon (Copagril), com 3,6 mil associados, a soja deve ocupar espaço 4% inferior aos 66 mil hectares do ano passado. Segundo o agrônomo Carlos Roberto Praisler, gerente do Departamento Agronômico, a redução é causada pela tendência de preço inferior, ‘‘mas também pela falta de semente’’. O milho, em compensação, terá acréscimo de área de 25% em relação aos 17 mil hectares da safra anterior.
A Cooperativa Agrícola Mista Vale do Piquiri (Coopervale), com sede em Palotina e seis mil associados, estima que não haverá alterações significativas nas áreas de soja, milho e algodão, entre seus associados. Em relação ao trigo, o agrônomo Jorge Myziak, observa que o excesso de chuvas provocou o surgimento de doenças ‘‘de difícil controle’’. A quebra na safra foi de 40%, e na parte colhida, a qualidade foi baixa.

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