Para tomar um cafezinho feito na hora vale qualquer sacrifício. Porém, viajar cerca de 8,5 mil quilômetros já é história para sete pesquisadores peruanos de duas Organizações Não-governamentais (ONGs). Eles enfrentaram 105 horas de estrada para participar do Workshop Internacional sobre o Manejo da Broca-do-Café, promovido pelo Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), evento que encerrou anteontem, no Hotel Sumatra, em Londrina.
Seis dias de viagem, oito embarques e desembarques de ônibus, enfrentando ainda o sacolejo do trem de Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) até a fronteira brasileira em Corumbá (MS) - o trecho mais difícil na opinião dos pesquisadores em consequência da altitude.
Na bagagem, o pessoal trouxe um dose extra de espírito de aventura, capaz de despertar inveja em muitos mochileiros ao enfrentar a precariedade dos ônibus no itinerário peruano, levando ainda na esportiva, as diversas fiscalizações de combate às drogas.
Números da odisséia em favor da pesquisa registrados no diário de bordo - uma agenda surrada - de Elmer Juarez Nima, agrônomo da ONG Institucion Idaca que, com pesquisadores da organização Urku Estudos Amazônicos, enfrentou o percurso para conhecer as pesquisas de combate à broca do café.
''Ah, chegamos bem cansados, mas gastamos menos reais do que se a viagem fosse feita de avião. Avião são dólares a mais e os nossos recursos são escassos'', afirmou Nima, durante uma visita ontem pela manhã ao Sítio Bela Vista, em Lerroville (65 quilômetros ao Sul de Londrina), para que o grupo conhecesse o combate à broca e o manejo de solo realizado pelas 47 famílias cooperadas da Cooperativa Agroindustrial Solidária de Lerroville (Coasol).
Brincando ao dizer que ainda sentia dor ao sentar, depois do chá de banco de ônibus, o agrônomo Carlos Palacios Espinoza destacou que, apesar do sacrifício, estava satisfeito por poder trocar experiências com os técnicos e pesquisadores brasileiros. Satisfação ainda maior porque cada integrante do grupo gastará com a viagem até Londrina cerca de US$ 300. Durante esse ''passeio'', dormir foi algo que os pesquisadores fizeram somente em bancos de ônibus - agruras que vão se repetir na volta.
Apesar dos peruanos apreciarem um café ''água de batata'', o país é o primeiro produtor mundial de café orgânico ao ultrapassar, em 2004, a produção mexicana. ''Cerca de 10 a 15% da nossa produção é dedicada ao café orgânico'', acrescenta Nima. Com 70% do território nacional na Selva Amazônica, o café peruano é plantado na sombra das árvares.
''O solo brasileiro em que o café é plantado é diferente. Na selva é mais arenoso. No Peru, há destruição de bosques para o plantio e eliminação de árvores naturais, que depois são reflorestadas'', explicou Nima, destacando que naquele país 270 mil hectares são ocupados com café. A região de San Martín, a qual o grupo de pesquisadores pertence, possui 40 mil hectares com produto.

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