Jogos de videogame usam, com certa frequência, histórias marcantes da humanidade em seus enredos. Geralmente, fantasia e realidade se misturam, tentando trazer ao jogador pelo menos uma pitada de alguma época marcante. Um bastante batido – principalmente em jogos de tiro – é a Segunda Guerra Mundial. Quem não se lembra, por exemplo, da franquia Medal of Honor?

Mas neste ano, um estúdio francês chamado Asobo – em trabalho conjunto com a publisher Focus, também do país - rompeu com os clichês e trouxe um período da história pouco explorado na indústria dos jogos eletrônicos: a Idade Média nos anos de Peste Negra (hoje conhecida como Peste Bubônica), que assolou metade da população europeia. Uma doença que chegou da Ásia e que através dos ratos se proliferou pelo continente, transformando muitos locais em cemitérios a céu aberto.

O jogo A Plague Tale: Innocence traz, de forma bela – se é possível dizer dessa forma – a história de duas crianças tentando viver neste mundo caótico, cheio de medos, incertezas, em que a morte é tão presente. A reportagem da FOLHA recebeu uma cópia do jogo e conta porque ele é fundamental para aqueles jogadores que apreciam boas histórias, com um ambiente narrativo envolvente e beleza gráfica impressionante.

DOIS IRMÃOS

A Plague Tale cativa justamente porque nos coloca num dos piores períodos da história sob o olhar de crianças. O jogador controla Amicia, uma garota de família nobre francesa no ano de 1348, que vê seus pais morrerem pelas mãos da Inquisição. Então, ela se vê obrigada a cuidar de seu irmão Hugo, de 5 anos, que está sendo perseguido e ela não sabe o por quê.

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Nesta perspectiva, em que os dois caminham juntos pelo cenários inóspitos dessa França devastada, A Plague Tale nos remete ao game indie Brothers: A Tale of Two Sons, que também mostra uma narrativa cativante entre dois irmãos. Nesta perspectiva, é interessante ver como desenrola o relacionamento entre Amicia e Hugo, com momentos de fragilidade, beleza, vínculo entre os dois e, claro, muito medo.

IMERSÃO DELICIOSA

O jogo começa na propriedade da família Rune e já impressiona pelos detalhes gráficos de cada ambiente e também da luz bem trabalhada. Quando a perseguição aos irmãos começa, os vilarejos e igrejas católicas, tão presentes na época, são cenários construídos de forma impecável e com uma fotografia que enche os olhos. Outra dica é jogar o game em francês, para aumentar ainda mais a imersão. As legendas em português são ótimas.

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Numa série no YouTube criada pelo estúdio francês, localizado em Bordô, para falar do desenvolvimento do game, a equipe mostra como usaram as vielas da cidade como inspiração. O pintor Claude Lorrain, famoso pelos tons da sua arte, também foi inspiração para os desenvolvedores. Aliás, a série do YouTube é demais, com episódios de três a quatro minutos.

RATOS E MAIS RATOS

A Plague Tale é um game, basicamente, de puzzle e furtividade. Muito desses momentos de quebra-cabeça estão ligados aos ratos do jogo, que foram peça chave para a disseminação da Peste Negra na Europa. Por isso, os personagens precisam sempre se desviar deles, usando pontos de luz para que eles não ataquem Amicia e Hugo. As cenas com os animais impressionam pelo volume deles e até nos deixa com um pé atrás depois que desligamos o jogo, olhando pelos cantos do sofá.

GRÁFICOS REALISTAS E GAMEPLAY "OK"

Como se trata de um jogo linear, ele acaba lembrando muito The Order, exclusivo de PS4. Ambos têm beleza gráfica lindíssima, mas sem muitas áreas de exploração. De forma geral, enfrentamos alguns chefões da Inquisição no game, mas a beleza dele está mesmo em se esconder e fugir, o que é mais natural já que controlamos crianças.

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O desenvolvimento das armas de Amicia é muito parecido com outros jogos e, no geral, o gameplay cumpre seu papel, sem novidades. A movimentação dos jogadores é boa, mas a Inteligência Artificial dos inimigos é bem simplista.

O VEREDITO

Por fim, vale dizer que A Tale Plague: Innocence encanta mais pela sua imersão do que jogabilidade em si. Para quem curte jogos com histórias diferentes, visual artístico além do comum, boa trilha sonora e enredos emotivos, o jogo é essencial. Após jogar, você nunca mais se esquecerá desse período que assombrou a humanidade.

ÉPOCAS MARCANTES

No dia 15 de maio, a histórica Catedral de Notre-Dame, em Paris, foi devastada pelas chamas e causou comoção por todo o mundo pela sua representatividade na história europeia. Poucos dias depois, foi divulgado que o game Assassin's Creed Unity, da Ubisoft, poderia ajudar na reconstrução, afinal, o jogo recriou com muitos detalhes a igreja. O trabalho de pesquisa durou dois anos e foi feito pela artista Caroline Miousse para recriá-la no mundo virtual. Aliás, a Ubisoft fez uma doação milionária para ajudar na reconstrução.

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Isso mostra como a história e os videogames estão conectados. O comerciante de games e bacharel em história, Gabriel Modenutti, relata que é comum os jogos passarem pela mão de profissionais especialistas para montar suas narrativas. “Assassin's Creed, God of War e A Plague Tale são alguns bons exemplos. É muito bacana porque você traz levantamentos históricos, discussões de estudo, para games, que é um objeto de entretenimento.”

Gabriel relata, inclusive, que é muito mais fácil as pessoas entenderem a história quando estão imersas nela. Jogar, acaba sendo uma ótima ferramenta para isso. “Elas acabam conectadas de alguma forma e isso faz sentido para elas (de forma mais lúdica) e o conhecimento e a absorção da história da humanidade acabam sendo maior.” (V.L.)

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