O sistema financeiro global ainda não se recuperou das crises de 1997 a 1999, disse ontem George Soros, o mais famoso especulador internacional. Ele se mostrou especialmente preocupado com a Ásia: os bancos da Tailândia e da Coréia ‘‘não estão em boa forma, e, se vier uma nova tormenta, não se sabe como poderão reagir’’.
Em sua descrição do quadro mundial, o Brasil vai bem, a Argentina está melhorando e essa tendência deverá manter-se, mesmo que a região seja afetada pelo esfriamento econômico americano. As perspectivas, afirmou, continuam promissoras. A Argentina, ‘‘depois de três anos de sofrimento’’, está sendo favorecida pela evolução do mercado europeu, pela ajuda do Fundo Monetário Internacional e pela tendência de recuperação dos preços das commodities. Os Estados Unidos provavelmente já estão em recessão, segundo Soros.
Ele não exibiu, no entanto, maior preocupação com os Estados Unidos. O Sistema da Reserva Federal, o Fed – banco central americano –, deverá baixar os juros até o ponto necessário para estabilizar a economia, afirmou.
A economia européia terá um esfriamento menor que a americana, continuou o financista. Essa avaliação se baseia, em parte, numa importante diferença entre as famílias da Europa e dos Estados Unidos. As européias têm menos dinheiro aplicado no mercado de ações. Têm sido menos afetadas, portanto, por perdas em bolsas. O desempenho europeu, segundo Soros, deve ser melhor que o dos Estados Unidos e talvez pior do que as autoridades européias têm afirmado.
Quanto ao Japão, seu sistema financeiro está ‘‘obviamente doente’’, afirmou Soros, repetindo uma avaliação comum ouvida com frequência em Davos, nos últimos dias. O governo japonês, segundo opinião de muitos especialistas, pouco avançou na reforma do setor bancário, desde a crise de 1997.
Em sua crítica, Soros acentua o desequilíbrio de poder no sistema global, controlado pelos países ‘‘do centro’’. Os primeiros têm muito maior liberdade para conduzir suas políticas. Exemplo: o Fed pode baixar os juros para regular a economia, lembrou o financista, mas o banco central de um país em desenvolvimento nem sempre pode fazer isso. Numa economia ‘‘periférica’’, juros em baixa podem resultar em fuga de capitais. A simples operação do mercado, segundo sua análise, é insuficiente para nivelar o campo. Ao contrário, pode acentuar as desigualdades, tem argumentado Soros em artigos, livros e entrevistas.
É preciso reconhecer a disparidade, afirmou, e criar instrumentos e incentivos para as políticas que levem ao desenvolvimento. O sistema precisa de mudanças e é preciso pensar nos meios de reformá-lo e não de destruí-lo, ‘‘o que seria um desastre’’, segundo Soros.

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