Se existe um produto que o brasileiro realmente não gosta de comprar é o seguro de vida. É difícil pensar no assunto sem relacionar com aquilo que as pessoas menos desejam, ou seja, o outro lado da nossa existência (ou da falta dela).
  Mesmo não sendo um tema da preferência popular, o seguro de vida tem a sua função na sociedade. O corretor de seguros João Pedro Gléria explica que ‘‘todo cidadão, seja solteiro ou casado, tem suas obrigações’’, e por isso, ‘‘a função principal do seguro é cobrir essas obrigações quando a pessoa falecer e ainda deixar dinheiro para que a família retome a vida’’.
  Trabalhar com seguros não é uma tarefa fácil. Além da obrigação de conquistar o cliente, o corretor se envolve com um emaranhado de números, planos, faixas etárias, valores de cobertura e até uma tabela (meio macabra, diga-se de passagem) com os ‘‘valores’’ dos membros do corpo. Por exemplo, no plano convencional, o dedo indicador vale 15% e o polegar 25% para efeitos de indenização. Se for um plano profissional, no caso de um cirurgião, a cobertura da indenização pela perda do polegar, indicador ou ambos, é de 100%.
  Uma boa parte da população economicamente ativa no Brasil tem seguro de vida por ser um benefício concedido, total ou em parte, pelas empresas empregadoras. Também há seguros com coberturas temporárias, como nos casos de empréstimos, financiamentos habitacionais ou consórcios. E ainda outros específicos que são ‘‘contratados’’ apenas para viagens em qualquer meio de transporte. E quem possui um carro precisa ter o seguro obrigatório, que é uma forma de seguro de vida.
  De livre e espontânea vontade, são poucos que fazem seguro de vida. De acordo com o corretor João Pedro Gléria, ‘‘o brasileiro está mudando esta mentalidade, mas, de um modo geral, sempre deixa para depois’’. Ele diz que as pessoas que decidem fazer seguros estão nas classes A e B. Além disso, o índice de cancelamentos é considerado alto, sendo causado na maioria das vezes por problemas financeiros ou
desemprego.
  Embora seja um produto para uma clientela seletiva, ainda há restrições para algumas categorias consideradas de alto riso, como mototaxistas, pilotos de avião e paraquedistas. ‘‘Se um mototaxista resolve fazer um seguro individual, certamente terá dificuldades porque são poucas as companhias que aceitam fazer este seguro’’, diz o corretor.
  Josias Aparecido de Oliveira, de 36 anos, trabalha como mototaxista há sete anos. Mesmo admitindo que não tem condições de fazer um seguro no momento, ficou surpreso com a restrição: ‘‘Sinceramente, eu nem sei o que pensar sobre isso; só acho que eles deveriam fazer o seguro exatamente por ser uma profissão de risco’’.
  A empregada doméstica Clarice Jesus da Silva, de 41 anos, nunca teve um seguro de vida. Apesar de incerta sobre a utilidade do produto, diz que ‘‘faria o seguro se estivesse trabalhando; é importante’’.
  O contabilista Ronaldo dos Santos, de 41 anos, afirma que não tem o seguro ‘‘por desinformação e por não ter sido procurado; eu gostaria de fazer o seguro - é essencial’’. Ele acredita que a população deveria ser melhor esclarecida sobre o assunto: ‘‘As informações deveriam ser abertas, bem claras; eu imagino isso’’.

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