O segredo é capitalizar o talento
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quarta-feira, 25 de outubro de 2006
Erika Zanon<br> Reportagem Local 
Capitalizar uma habilidade, um dom, um talento nato. Tornar rentável um hobby. Ou apostar todas as fichas em uma nova e segunda atividade para ter uma renda extra. Em tempos de salários escassos, em meio à necessidade ou por prazer, muitos brasileiros se aventuram por caminhos alternativos e, além do emprego diário com carteira assinada, descolam um bico para ganhar um dinheirinho a mais.
Eles são artesãos, vendedores, quituteiros, animadores de festas, músicos, esteticistas, personagens que movimentam a economia, oferecendo seus serviços e gerando renda. São empreendedores, gente disposta a sair das dívidas, a concluir os estudos, a pagar os estudos para os filhos, a guardar um dinheiro para comprar uma casa, um carro, ou querem ao menos se divertir.
São pessoas como a estudante de jornalismo, Vanessa Carvalho, 21 anos. Na carteira de trabalho carrega o registro de atendente de call center, mas nas horas vagas veste uma fantasia de palhaço para engordar o orçamento. Durante o dia - fora do expediente - ou aos finais de semana, Vanessa animar festas infantis. Tudo começou há um ano e meio, quando a estudante sentiu a necessidade de complementar a renda para pagar os estudos.
''Precisava ganhar um dinheiro a mais. A faculdade é particular e só com o meu salário não estava dando conta de pagar tudo'', lembra Vanessa. Então, uma amiga da mãe dela, proprietária de uma empresa que organiza festas, comentou que precisava de alguém para fazer recreação nos eventos. ''Aceitei na hora: primeiro porque precisava do dinheiro e depois porque adoro crianças. Pra mim, esse trabalho é uma terapia, consegui unir o útil ao agradável'', gaba-se a estudante.
No emprego formal ela ganha R$ 360 por mês, mais vale-alimentação. E lucra a cada festa que anima R$ 25. ''Em média, faço umas seis festas por mês. Essa renda extra me ajuda muito, às vezes pago alguma conta da casa, ajudo a minha mãe ou compro alguma coisa para mim'', afirma. Se fica cansada ou quer parar? ''Não''. Vanessa é enfática em dizer que mesmo trabalhando como recreadora de festas por necessidade, não pretende parar quando terminar a faculdade, quer unir a profissão de jornalista à de palhaça. ''Às vezes fico cansada, não dá para sair com os amigos. Mas tenho uma prioridade na vida que é terminar a faculdade, por isso não me importo em trabalhar tanto'', enfatiza.
A mesma determinação tem a auxiliar de administração Mara Cristina de Freitas, 37 anos, que depois de se separar do marido, há quatro anos, e passar por dificuldades financeiras, resolveu colocar a mão na massa e começar a fazer doces e salgados para vender. ''Eu estava bem desesperada, tinha minhas filhas para criar, contas para pagar e não sabia o que fazer. Um dia, passei em frente a uma banca, vi uma revista que ensinava algumas técnicas para fazer doces e salgados, comprei o exemplar e coloquei em prática'', recorda Mara, que há 12 anos trabalha em uma empresa de consórcios.
Mara começou primeiro pelos lanches e salgados, que vendia para os colegas da empresa em que trabalha. Depois vieram as tortas e bolos que também foram aprovados. ''Todo final de mês tem a comemoração dos aniversariantes, então, o pessoal começou a me pedir para fazer os bolos e doces'', lembra. Mara também conseguiu uma parceria com uma pessoa que faz festas infantis, para quem fornece os quitutes. Em média, ela faz 5 mil doces por mês.
No emprego formal, Mara ganha um salário de R$ 950. Com a venda dos quitutes, ela chega a lucrar mais do que o salário mensal. ''O trabalho é árduo, acordo de madrugada e trabalho aos finais de semana para dar conta da demanda. Faço tudo sozinha, quando me apuro peço ajuda da minha mãe ou do meu marido'', comenta a quitutera, que ainda faz faculdade de administração à noite. ''Foi difícil no começo, mas com o dinheiro que ganhava consegui sair do sufoco. Agora tenho planos de montar a minha própria empresa no futuro'', planeja.


