Desde o processo de redemocratização do Brasil na década de 1980 até o atual momento político, cinco presidentes se revezaram no poder. Sem exceção, todos tiveram que lidar com um tema estratégico: o salário mínimo. Nestes pouco mais de 20 anos, este valor de referência sofreu com as experiências econômicas vivenciadas em nosso passado recente, passou a recuperar seu poder de compra desde o Plano Real e, segundo especialistas, resiste como um símbolo de conquista do trabalhador e como parâmetro econômico fundamental para o país.
Nos últimos dias, a discussão sobre o salário mínimo voltou à ordem do dia em razão do envio ao Congresso da proposta orçamentária para 2010, com previsão de reajuste dos atuais R$ 465 para R$ 506 a partir de janeiro. O índice de 8,8% engloba a inflação do período – 3,54%, segundo o INPC – e o crescimento real de 5,08% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2008.
Professor de Economia e Finanças na Universidades Estadual de Londrina (UEL) e Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR) em Londrina, Azenil Staviski afirma que a história do salário mínimo nas duas últimas décadas pode ser dividida em antes e depois do Plano Real. ‘‘Nos anos 80, o salário teve flutuações significativas para menos por causa da inflação alta e desequilíbrio nas contas externas, que se aprofundam no período pré-real do Governo Collor. Com a entrada em vigor do Plano Real, em julho de 1994, o salário início um processo de estabilidade com um crescimento real de seu poder de compra.’’
Com dados do Instituto de Planejamento Econômico Aplicado (Ipea), o professor aponta que no governo José Sarney (15/03/1985-15/03/1990) o salário variou do máximo de R$ 419,82 (05/85) ao mínimo de R$ 229,82 (03/87). Durante a gestão de Fernando Collor (15/03/1990-02/10/92), que tentou conter a crise com três planos econômicos, a perda foi ainda maior: em agosto de 1991, o salário atingiu seu pior nível nas duas últimas décadas, chegando à R$ 134,65. No Governo Itamar Franco (02/10/1992-01/01/95), o poder de compra dos salários continuaram variando negativamente até a implantação do Plano Real, em julho de 94, quando atingiu R$ 214,44 e retomou uma curva acendente.
 A partir do governo Fernando Henrique Cardoso (01/01/1995-01/01/2003) e, agora, durante estes dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (a partir de 01/01/2003), o salário mínimo está conseguindo recuperar parte das perdas. Conforme o professor, entre julho de 94 até o piso atual o ganho percentual em moeda corrente é de 116,84%.
Staviski ressalta que a tendência é que o mínimo mantenha-se em recuperação mas alerta que este processo depende de três fatores fundamentais: ‘‘da decisão de implementar uma política de reajustes compatíveis com índices de inflação e ganhos em função do Produto Interno Bruto; do controle da inflação; e de crescimento econômico’’. Ele complementa que quando uma destas variáveis entra em descompasso, isso repercute também no poder de compra do assalariado. Mesmo assim, o economista entende que a autonomia do Estado na definição de um piso salarial mínimo é uma garantia de proteção ao trabalhador. ‘‘Tentando ser realista, sem ser demagogo, diria que o salário mínimo é uma conquista, ainda que haja uma dependência muito grande das decisões políticas.’’

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